Rouquidão é sintoma, não diagnóstico. A voz dá a pista, mas quem fecha o diagnóstico é a laringoscopia. Na prova e na vida, o erro clássico é tratar sem olhar e deixar passar um câncer.
Disfonia é qualquer alteração na qualidade, tom (altura), intensidade ou esforço para produzir a voz, que atrapalha a comunicação ou a qualidade de vida. Rouquidão é o tipo mais comum, mas não o único.
| Termo | O que é | Não confundir com |
|---|---|---|
| Disfonia | Voz alterada, produzida com dificuldade | — |
| Afonia | Ausência de voz (só sussurro) | Afonia psicogênica: sussurra, mas tosse com som normal |
| Disartria | Alteração da articulação das palavras | É problema de fala (neurológico), não da laringe |
| Odinofonia | Dor ao falar | — |
| Fadiga vocal | Voz piora ao longo do uso | Pensar em miastenia se piora progressiva com esforço |
Estimativas sugerem que cerca de 1 em cada 3 pessoas terá disfonia em algum momento da vida. Os grupos de maior risco são profissionais da voz (professores, cantores, operadores de telemarketing), tabagistas, idosos e pessoas com refluxo. Crianças que gritam muito formam outro grupo clássico (nódulos).
A regra que organiza tudo: rouquidão que não melhora em até 4 semanas precisa de laringoscopia (diretriz americana de disfonia, AAO-HNS). Se houver sinal de alarme, não se espera prazo nenhum. Muitos serviços usam 2–3 semanas como corte para tabagistas.
Marque o que o paciente tem.
| Faixa | Causas mais importantes | Não deixar passar |
|---|---|---|
| Lactente | Choro fraco ou rouco: paralisia de prega vocal (pós-cirurgia cardíaca, neurológica), membrana laríngea congênita | Estridor associado = investigar via aérea |
| Criança | Nódulos vocais (causa mais comum, meninos que gritam), cistos, laringite aguda | Papilomatose respiratória recorrente: rouquidão progressiva que evolui com estridor |
| Adulto jovem | Nódulos (mulheres, professoras), pólipos, cistos, laringite, refluxo, disfonia por tensão muscular | Hemorragia de prega vocal após grito |
| Meia-idade | Edema de Reinke (mulher tabagista), granuloma, refluxo, leucoplasia | Câncer em tabagista |
| Idoso | Presbifonia (atrofia), paralisia, Parkinson, câncer | Paralisia por tumor de pulmão/mediastino |
As lesões benignas da prega vocal nascem quase todas na lâmina própria superficial (espaço de Reinke), a camada gelatinosa que ondula na fonação. A maioria tem relação com fonotrauma: impacto repetido das pregas.

| Nódulos | Pólipo | Cisto | Edema de Reinke | Granuloma | |
|---|---|---|---|---|---|
| Lado | Bilateral, simétrico | Geralmente unilateral | Unilateral (pode ter reação contralateral) | Bilateral, difuso | Uni ou bilateral |
| Local | Junção 1/3 anterior e médio | Borda livre, 1/3 anterior-médio | Dentro da prega (intracordal) | Toda a porção membranosa | Posterior: processo vocal da aritenoide |
| Quem | Crianças (meninos) e mulheres adultas, uso vocal intenso | Adultos; grito, tabagismo, anticoagulante | Profissionais da voz | Mulher de meia-idade tabagista | Intubação, refluxo, pigarro |
| Causa | Fonotrauma crônico | Fonotrauma, muitas vezes agudo | Congênito (epidermoide) ou retenção glandular | Tabagismo (quase sempre) | Trauma na mucosa sobre a cartilagem |
| Voz | Rouca, soprosa, pior no fim do dia | Rouca, pode ser bitonal | Rouca, quebras | Grave, “masculinizada” | Muitas vezes pouco alterada |
| 1ª linha | Fonoterapia | Cirurgia (microcirurgia) + fono | Cirurgia + fono | Parar de fumar; cirurgia se obstrução/voz | Antirrefluxo + fono; cirurgia recidiva muito |


Onde as duas pregas batem com mais força quando vibram?
A parte que vibra é a porção membranosa (os 2/3 anteriores). O ponto de maior amplitude e impacto fica no meio dessa porção, ou seja, na junção dos terços anterior e médio da prega inteira. Impacto repetido ali engrossa a mucosa dos dois lados, como um calo. Por isso o nódulo é bilateral e simétrico, e na fonação deixa uma fenda em “ampulheta”.
O que tem embaixo da mucosa na parte posterior da prega?
O terço posterior é a porção cartilaginosa: mucosa fina sobre o processo vocal da aritenoide. O tubo de intubação, o ácido do refluxo e o pigarro ferem essa mucosa contra a cartilagem, e o tecido de granulação cresce ali. Por isso o tratamento é tirar a agressão (antirrefluxo, fono para pigarro), e a cirurgia isolada recidiva.
Visão endoscópica esquemática: anterior embaixo (comissura anterior), posterior em cima (aritenoides), como nas fotos desta nota.
Quase sempre viral, junto com IVAS. Dura dias a ~3 semanas.
Agressão persistente à mucosa.
Uma prega parada; a outra não consegue fechar a fenda. Voz soprosa e fraca, cansaço ao falar, às vezes engasgo.
As duas pregas param perto da linha média. Voz quase normal, mas estridor e dispneia.
| Doença | Voz | Pista | Tratamento |
|---|---|---|---|
| Disfonia espasmódica (distonia focal) | Tensa-estrangulada, com quebras (tipo adutor) | Melhora ao rir, cantar ou sussurrar; laringe estruturalmente normal | Toxina botulínica no músculo tireoaritenóideo |
| Parkinson | Fraca, baixa, monótona (hipofonia) | Outros sinais parkinsonianos; fenda por arqueamento | Fonoterapia intensiva (método LSVT LOUD) e tratamento da doença |
| Tremor essencial | Voz trêmula, rítmica | Tremor de mãos e cabeça | Tratamento do tremor; toxina em casos selecionados |
| Miastenia gravis | Piora com o uso, fadiga | Ptose, diplopia, disfagia | Tratamento da miastenia |
| ELA / AVC de tronco | Disfonia com disartria e disfagia | Engasgo, aspiração; lesão do laríngeo superior reduz tosse | Suporte, fono, proteção da via aérea |
Envelhecimento da voz: atrofia do músculo vocal e da lâmina própria deixa as pregas arqueadas, com fenda fusiforme no fechamento. Voz fraca, soprosa, que cansa; no homem tende a ficar mais aguda, na mulher mais grave. É diagnóstico de exclusão no idoso, depois de afastar câncer, paralisia e Parkinson. Tratamento principal: fonoterapia.


| Sítio | Frequência | Primeiro sintoma | Metástase linfonodal | Prognóstico |
|---|---|---|---|---|
| Glote | O mais comum | Rouquidão precoce (lesão pequena já altera a voz) | Tardia (pouca drenagem linfática) | Bom se diagnosticado cedo |
| Supraglote | 2º | Tardio: disfagia, odinofagia, otalgia referida, massa cervical | Precoce, muitas vezes bilateral | Pior |
| Subglote | Raro | Estridor, dispneia | Nível VI, paratraqueal | Pior |
Uso ineficiente e tenso da musculatura da laringe e do pescoço, sem lesão orgânica que explique.
Perda da voz ligada a conflito emocional (transtorno conversivo), geralmente súbita.
Rouquidão > 4 semanas ou com sinal de alarme = laringoscopia. Nada de antibiótico, corticoide ou IBP às cegas.
Nódulo: bilateral, fonotrauma crônico, fonoterapia. Pólipo: unilateral, agudo, cirurgia.
Reinke, leucoplasia e câncer. Rouquidão persistente é câncer até prova em contrário.
Glote: rouquidão cedo, metástase tarde, bom prognóstico. Supraglote: sintomas tardios e metástase precoce.
Unilateral = voz soprosa. Bilateral = voz ok e falta de ar. Sem causa cirúrgica: TC da base do crânio ao mediastino.
Nódulos são o mais comum; rouquidão progressiva com estridor = papilomatose (HPV 6/11).