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▦ MED06663 · Otorrinolaringologia · UFRGS
Não cai na Prova 1 · provável Prova 2 Otites caem em qualquer prova

Otalgia &
otites.

Da dor de ouvido com otoscopia normal (metade das vezes a orelha é inocente) até a criança de 18 meses com tímpano abaulado. Aula de Sady Selaimen — roteiro orientado à prova.

Otalgia referida
~50%
Nervos da orelha
V·VII·IX·X·C2-3
OMA · 1ª escolha
Amoxicilina
MT NORMAL · PEROLADA · TRIÂNGULO LUMINOSO pars flácida cabo do martelo cone de luz
01 / Otalgia

A orelha dói, mas é mesmo a orelha?

Otalgia é dor percebida na orelha. Divide-se em dois grupos com raciocínios opostos:

Primária · otogênica

A doença está na orelha

  • Pavilhão, CAE, membrana timpânica, orelha média/mastoide
  • Otites externas, OMA, pericondrite, herpes zoster ótico, rolha/corpo estranho, barotrauma
  • Otoscopia alterada e/ou sintomas otológicos associados: otorreia, hipoacusia, plenitude, zumbido, vertigem
Secundária · referida · reflexa

A orelha é só "o alto-falante"

  • ~50% dos pacientes com otalgia
  • O estímulo nasce longe (ATM, dentes, faringe, laringe, coluna cervical) e chega pelos mesmos nervos que inervam a orelha
  • Otoscopia normal, sem hipoacusia/otorreia; audiometria e timpanometria normais

Por que a dor "viaja": os 6 nervos da orelha

A orelha recebe fibras sensitivas de quatro pares cranianos (V, VII, IX, X) e dois ramos do plexo cervical (C2–C3). Qualquer foco nociceptivo no território desses nervos pode ser interpretado pelo córtex como dor de ouvido (convergência central).

V
Trigêmeo · V3
N. auriculotemporal → tragus, parede anterior do CAE, MT
Refere de: ATM/DTM, dentes (3º molares), parótida, seio maxilar, língua anterior, neuralgia do trigêmeo
VII
Facial · n. intermédio
Concha, parede posterior do CAE
Refere de: herpes zoster ótico (Ramsay Hunt), neuralgia geniculada, tumores do facial
IX
Glossofaríngeo
N. de Jacobson (timpânico) → orelha média, tuba
Refere de: tonsilas (amigdalite, pós-tonsilectomia, abscesso), base da língua, orofaringe, nasofaringe, neuralgia do IX, síndrome de Eagle
X
Vago
N. de Arnold (ramo auricular) → concha, CAE posterior
Refere de: hipofaringe, laringe, esôfago, tireoide, DRGE. (Tosse ao limpar o CAE = reflexo de Arnold)
C2–3
Plexo cervical
Grande auricular (C2–C3) e occipital menor (C2)
Refere de: coluna cervical (osteoartrose), contratura muscular, linfonodos cervicais
★ Mnemônico de prova

"Todo tabagista > 50 anos com otalgia e otoscopia normal tem câncer de VADS até prova em contrário." Carcinoma de nasofaringe (~56% cursam com otalgia), hipofaringe (~26%), orofaringe (até 16%), laringe e língua. Otalgia + rouquidão, disfagia, odinofagia, perda de peso ou linfonodo cervical = nasofibrolaringoscopia obrigatória.

Causas de otalgia referida (da mais comum à que não pode passar)

CausaPistasNervoConduta
DTM / artralgia da ATM
provavelmente a mais comum
Dor pré-auricular, piora ao mastigar, estalido/crepitação, bruxismo, desvio/limitação de abertura; plenitude, zumbido. Palpação dolorosa da ATM, masseter, temporal; pterigoide (via oral) é o achado mais consistente. Rara em criançasV3Conservador: analgesia, calor local, massagem, placa oclusal (alívio em até 75%); tricíclico se ansiedade
DentáriaCárie/abscesso de 3º molar, pulpite, doença periodontal, fratura; em criança: erupção dentáriaVOdontologia
Faringe/tonsilasAmigdalite, abscesso periamigdaliano, pós-tonsilectomia, faringiteIXTratar causa
Glândulas salivaresSialolitíase (dor que piora ao comer), parotidite (edema, trismo), hipertrofia do masseter/bruxismoVTratar causa
Coluna cervicalCervicalgia, osteoartrose C2–C3, contratura, dor com movimento do pescoçoC2–C3Fisioterapia
Neuralgia do trigêmeoDor em choque, paroxística, segundos a minutos, gatilho; V2/V3; ramo auriculotemporalVCarbamazepina; descompressão se refratária
Neuralgia do glossofaríngeoRara; dor excruciante em base de língua, palato, faringe lateral, irradia à orelha e ângulo da mandíbula; gatilho deglutiçãoIXAnticonvulsivante
Síndrome de EagleProcesso estiloide alongado / ligamento calcificado: otalgia, odinofagia, sensação de corpo estranho, dor ao girar o pescoçoIXTC; ressecção se sintomático
DRGE / laringePirose, pigarro, globusXIBP, investigar
Neoplasia de VADS>50 anos, tabagismo, etilismo, CA prévio de cabeça e pescoço; rouquidão, disfagia, linfonodomegalia, emagrecimento; OME unilateral no adulto (nasofaringe)IX / X / VNasofibrolaringoscopia, biópsia, TC/RM, EDA

Fluxograma — otalgia

1
Passo 01 · Anamnese
Há sintomas otológicos associados?
Otorreia, hipoacusia, plenitude, zumbido, vertigem, febre, IVAS recente, água/cotonete, prurido?
SIM
Pense em otalgia primária → siga para a otoscopia com alta suspeita de otite.
NÃO
Aumenta a chance de referida. Pergunte: mastigação, bruxismo, dentes, garganta, deglutição, voz, pescoço, tabagismo/etilismo, peso.
2
Passo 02 · Otoscopia
Pavilhão, CAE e MT estão normais?
Tração do pavilhão/tragus dói? CAE edemaciado? Vesículas? MT abaulada, retraída, perfurada, com efusão?
ALTERADA
Otalgia primária: otite externa (dor à tração), OMA (abaulamento), zoster (vesículas), pericondrite (pavilhão poupa lóbulo)…
NORMAL
Complete com audiometria + timpanometria se houver dúvida. Normais → manejar como otalgia referida.
3
Passo 03 · Exame completo
Examine tudo que compartilha os nervos
"O exame físico jamais deve se limitar à otoscopia."
  • ATM (palpação, ruídos, abertura) + masseter, temporal, pterigoide
  • Oroscopia criteriosa: dentes, gengiva, tonsilas, palpação de base de língua e assoalho
  • Rinoscopia anterior e nasofibrolaringoscopia (nasofaringe, hipofaringe, laringe)
  • Pescoço: linfonodos, glândulas salivares, coluna cervical e musculatura
  • Pares cranianos
4
Passo 04 · Risco oncológico
Tem fator de risco para carcinoma?
>50 anos, tabagismo, etilismo, CA de cabeça e pescoço prévio, rouquidão, disfagia, linfonodo, emagrecimento?
SIM
Descartar lesão de trato aerodigestivo alto: nasofibrolaringoscopia, TC/RM de pescoço, EDA, biópsia de lesão suspeita.
NÃO
Trate a causa encontrada (DTM, dente, cervical). Sem causa → acompanhar e reinvestigar se persistir; considerar neuralgias.

Pense, depois revele

?
Por que um carcinoma de seio piriforme dá dor na orelha e não na garganta?
Pense em:

Qual nervo inerva a hipofaringe e também tem um ramo auricular?

Resposta:

O vago (X) inerva hipofaringe/laringe e dá o ramo auricular (nervo de Arnold) para concha e CAE. As aferências convergem nos mesmos neurônios de segunda ordem no tronco (núcleo do trato espinal do trigêmeo) e o córtex "atribui" a dor ao território cutâneo mais bem mapeado — a orelha. Por isso a otalgia pode ser o único sintoma de um tumor de hipofaringe ou supraglote.

?
Adolescente com otalgia bilateral matinal, cefaleia e dor ao mastigar; otoscopia normal. Hipótese e o que palpar?
Pense em:

Piora matinal + mastigação = hábito noturno parafuncional.

Resposta:

DTM por bruxismo (V3 · auriculotemporal). Palpar ATM (dor, estalido, crepitação), masseter, temporal e pterigoide pela boca; observar desvio e limitação da abertura. Tratamento conservador: analgesia, calor, placa oclusal (odonto).

02 / Otites externas

A dor que piora ao puxar a orelha.

Inflamação da orelha externa (pele, anexos, subcutâneo, pericôndrio, cartilagem e osso do CAE/pavilhão), predominantemente infecciosa. O CAE tem pele fina aderida ao osso na porção medial e cerume ácido e hidrofóbico que protege — umidade + trauma (cotonete) + pH alcalino quebram essa barreira.

Difusa aguda · "orelha de nadador" Circunscrita · furúnculo Fúngica · otomicose Maligna · necrotizante Herpes zoster ótico Pericondrite

Otite externa difusa aguda (OEDA)

⚠ Erro no resumo

O resumo escreve "A otite média difusa (ou orelha de nadador)". O correto é otite externa difusa aguda — celulite da pele e subcutâneo do CAE.

Epidemiologia · agente

Verão, piscina, cotonete

  • Incidência 1–4 casos/100 pessoas/ano; clima tropical, verão
  • Pseudomonas aeruginosa (mais frequente) > S. aureus / S. epidermidis; frequentemente polimicrobiana
  • Qualquer idade
Clínica

Otalgia intensa à manipulação

  • Dor à tração do pavilhão e à compressão do tragus; piora ao mastigar
  • Prurido e plenitude no início; otorreia clara → seropurulenta, sem muco
  • CAE edemaciado, com debris; MT muitas vezes não visualizável
  • Hipoacusia condutiva só se o edema ocluir o CAE; febre e linfonodo em casos graves
Tratamento

Limpar + gota tópica

  • Limpeza meticulosa do CAE (microaspiração) = medida isolada mais importante
  • Gotas antibióticas tópicas ± corticoide; analgesia
  • Proteger da água; evitar cotonete
  • Edema oclusivo → mecha (pavio) para a gota chegar
  • ATB sistêmico só se extensão além do CAE (celulite periauricular), DM/imunossupressão, ou impossibilidade de tratamento tópico
1
Pré-inflamatório

Remoção do cerume + umidade → edema do estrato córneo, obstrução das unidades apopilossebáceas → prurido, plenitude, ciclo coceira-coçar.

2
Inflamatório leve/moderado

Infecção progressiva: dor, mais prurido, eritema, edema, debris, otorreia.

3
Severo

Dor intensa à movimentação do pavilhão, estenose do CAE, otorreia purulenta, envolvimento de partes moles periauriculares.

4
Crônico

Resolução incompleta: pouca dor, prurido intenso, secreção persistente, agudizações.

Gotas otológicas — o que usar

Ciprofloxacino / ofloxacino tópico
2×/dia · ± corticoide
Excelente cobertura (Pseudomonas + S. aureus), não ototóxico → escolha se perfuração/tubo ou dúvida sobre a MT.
Polimixina B + neomicina + hidrocortisona
3–4×/dia
Eficácia documentada. Contém aminoglicosídeo: evitar se MT perfurada; neomicina causa dermatite de contato.
Gentamicina tópica
Eficaz
Contraindicada com perfuração timpânica — ototoxicidade coclear/vestibular.
Corticoide tópico associado
Adjuvante
Reduz edema das paredes do CAE e acelera alívio da dor.
⚠ Complemento ao resumo

O resumo cita apenas a gentamicina como ototóxica. Neomicina (também aminoglicosídeo) segue a mesma regra: com MT perfurada ou não visualizada, prefira quinolona tópica.

As outras otites externas — lado a lado

Circunscrita (furunculose)

Foliculite da unidade pilossebácea no terço cartilaginoso (lateral) do CAE.

Agente: S. aureus.
Clínica: dor localizada, extremamente intensa, piora à compressão do tragus; nódulo/pústula eritematosa; prurido inicial; otorreia e hipoacusia raras (salvo edema oclusivo).
Tratamento: calor local, analgesia, pomada/gota antiestafilocócica; ATB oral antiestafilocócico (ex.: cefalexina) se celulite; drenagem se flutuante.

Otomicose (fúngica)

Até 20% das otites externas. Prurido > dor.

Agentes: Aspergillus (debris com pontos pretos/acinzentados, "papel molhado com mofo") e Candida (debris brancos cremosos).
Fatores de risco: clima tropical, uso prolongado de gotas antibióticas (típico: após tratar OEDA), DM, imunossupressão, cirurgia otológica.
Clínica: prurido intenso, plenitude, dor incômoda, hipoacusia condutiva, zumbido.
Tratamento: limpeza completa + gotas acidificantes + antifúngico tópico (cetoconazol, clotrimazol). Suspender a gota antibiótica.

Maligna / necrotizante (OEN)

Osteomielite do osso temporal e base do crânio a partir de uma otite externa. Idoso diabético.

Quem: idoso + DM (microangiopatia), qualquer imunossupressão (HIV, quimioterapia, doença hematológica).
Agente: P. aeruginosa (resumo: 98%); raramente S. aureus, Proteus, Klebsiella, Aspergillus.
Clínica: otite externa arrastada que não melhora, dor profunda, lancinante, pior à noite, pouco responsiva a analgésico; otorreia purulenta fétida; tecido de granulação no assoalho do CAE na junção osteocartilaginosa; paralisia de pares cranianos — VII o mais afetado (75% dos que têm acometimento de PC; sintoma inicial em ~20%); depois IX, X, XI (forame jugular), XII.
Diagnóstico: VSG/PCR elevados (úteis no seguimento); TC de osso temporal com contraste (mais disponível e custo-efetiva); cintilografia com tecnécio (sensível, precoce) e gálio (seguimento); RM para partes moles/intracraniano; biópsia da granulação para excluir carcinoma + cultura.
Tratamento: internação, ATB antipseudomonas EV (ciprofloxacino EV; ceftazidima/piperacilina-tazobactam se grave/resistente) por ≥ 6 semanas, controle rigoroso da glicemia, limpeza do CAE, analgesia potente, debridamento focal se necessário. Casos leves: ciprofloxacino 750 mg VO 12/12 h ambulatorial. Alta recorrência → seguimento.

Herpes zoster ótico (Ramsay Hunt)

Reativação do VZV no gânglio geniculado (VII).

Tríade: otalgia intensa (frequentemente precede) + vesículas em concha/CAE/pavilhão (± palato, 2/3 anteriores da língua) + paralisia facial periférica.
Pode ter VIII: hipoacusia neurossensorial, zumbido, vertigem.
Tratamento: antiviral (aciclovir/valaciclovir/fanciclovir) + corticoide sistêmico precoce, analgesia, proteção ocular.
Prognóstico: recuperação facial pior que na paralisia de Bell.

Pericondrite

Inflamação do pericôndrio do pavilhão: dor, calor, edema, eritema — poupa o lóbulo (não tem cartilagem).

Causa mais comum hoje: piercing transcartilaginoso; também trauma, cirurgia, acupuntura, eczema, zoster.
Agente: P. aeruginosa (principal) e S. aureus → ATB sistêmico com cobertura antipseudomonas (quinolona); drenar abscesso para evitar necrose da cartilagem ("orelha em couve-flor").

OEDA × OEN — como separar

A OEN começa como OEDA. O que acende o alerta?

Paciente: idoso, diabético, imunossuprimido.
Tempo: sem resposta após tratamento tópico adequado (resumo: 2–3 semanas).
Dor: desproporcional, noturna, profunda.
Exame: granulação no assoalho do CAE, paralisia facial, VSG alta.
Pegadinha clássica

"Paciente hígido com OEDA → antibiótico via oral" está errado. O tratamento é limpeza + gota tópica + analgesia. ATB oral isolado nem atinge concentração útil no CAE. Oral/EV entra só com extensão, DM/imunossupressão ou OEN.

Pense, depois revele

?
Otorreia: como a secreção ajuda a dizer se a origem é a orelha externa ou a média?
Pense em:

Onde existem células caliciformes/glândulas mucosas?

Resposta:

A mucosa da orelha média é respiratória e produz muco; a pele do CAE, não. Secreção mucopurulenta (filante, às vezes sanguinolenta) = orelha média com MT perfurada. Secreção descamativa, sem muco = otite externa.

?
Diabético de 72 anos tratado há 3 semanas com gotas para "otite externa", agora com dor noturna intensa e boca torta. Diagnóstico, exame e conduta?
Pense em:

Otite externa que não cura + DM + nervo craniano = osso envolvido.

Resposta:

Otite externa maligna/necrotizante com paralisia do VII. Pedir TC de osso temporal com contraste, VSG/PCR, cultura e biópsia da granulação (excluir carcinoma). Internar: ciprofloxacino EV (ou betalactâmico antipseudomonas), ≥ 6 semanas, controle glicêmico, limpeza, analgesia, debridamento se preciso.

03 / Otite média aguda

A tuba falha, o tímpano abaula.

A OMA é a inflamação aguda da mucosa da orelha média com efusão, de início súbito, com sinais e sintomas inflamatórios. Pode ocorrer em adultos, mas é essencialmente doença da infância: ~80% das crianças terão ao menos um episódio até os 24 meses (dado do resumo), com pico entre 6 e 36 meses e um segundo pico clássico aos 4–7 anos (entrada na escola), hoje menos evidente pela ida precoce à creche.

Fisiopatologia — da IVAS ao abaulamento

1
IVAS viral na rinofaringe

Rinovírus, VSR, influenza A/B, adenovírus, parainfluenza, coronavírus, enterovírus. A orelha média é uma extensão da faringe: inflamação, lesão epitelial e colonização por bactérias da nasofaringe (adenoide = reservatório).

2
Disfunção da tuba auditiva

A tuba protege, ventila e drena. Na criança ela é curta, horizontalizada e pouco funcional → edema obstrui, pressão negativa, refluxo de secreção/bactérias da nasofaringe.

3
Efusão e infecção bacteriana

Transudação da mucosa → efusão que cresce → vasos da MT ingurgitados → otalgia, febre, abaulamento.

4
Supuração (± perfuração)

A pressão pode romper a MT: otorreia mucopurulenta e alívio característico da dor.

5
Convalescença — efusão pós-OMA

Reabsorção lenta pela tuba: a efusão pode persistir de 1 semana a 3 meses sem ser falha terapêutica.

Agentes — a trinca que cai sempre

1º (clássico)

Streptococcus pneumoniae

  • Maior chance de quadro grave e febre alta; de complicações (mastoidite)
  • Resistência por alteração de PBP → vencida com amoxicilina em dose alta

Haemophilus influenzae não tipável

  • Pode produzir betalactamase
  • OMA + conjuntivite purulenta = Haemophilus (síndrome otite-conjuntivite)
  • Após vacina pneumocócica conjugada, iguala/supera o pneumococo em várias séries

Moraxella catarrhalis

  • Quase 100% produtora de betalactamase
  • Quadros geralmente mais leves
⚠ Nuance à ordem do resumo

O resumo coloca pneumococo > hemófilo > moraxela, que é a resposta esperada em prova. Estudos na era da vacina pneumocócica conjugada mostram H. influenzae não tipável tão ou mais frequente. Na dúvida, a trinca é o que importa; S. aureus, Streptococcus beta-hemolítico do grupo A e Neisseria são distratores.

Fatores de risco

Intrínsecos

A criança

  • Idade 6–36 meses
  • História familiar de OMA/OMA recorrente
  • Fenda palatina, anomalias craniofaciais, síndrome de Down (disfunção tubária)
  • Imunodeficiências, rinite alérgica, DRGE
  • Hipertrofia de adenoide
Extrínsecos · modificáveis

O ambiente

  • Tabagismo passivo (sobretudo recorrente)
  • Creche/berçário
  • IVAS, especialmente influenza; inverno
  • Chupeta, mamadeira/amamentação deitada
  • Ausência de aleitamento materno
  • Vacinação incompleta (pneumococo, influenza); baixo nível socioeconômico

Diagnóstico — é clínico e depende da otoscopia

Sintomas: otalgia de início abrupto (mais frequente, sobretudo em crianças maiores); febre (característica, não obrigatória); no lactente: irritabilidade, choro, recusa alimentar, mexer/puxar a orelha; otorreia recente; IVAS concomitante. MT normal: perolada, semitransparente, com triângulo luminoso, em posição neutra e móvel.

Critério forte
Abaulamento
moderado a intenso da MT
Critério forte
Otorreia
recente, não explicada por otite externa
Critério possível
Abaul. leve
+ otalgia de início < 48 h
Critério possível
Hiperemia
intensa da MT (com abaulamento leve)
Exclui
Sem efusão
sem líquido na OM não é OMA
⚠ Correção de leitura do resumo

O resumo lista "intensa hiperemia timpânica" como critério isolado. Pela AAP (2013), a hiperemia intensa entra junto com abaulamento leve/dor recente. Hiperemia isolada não fecha OMA: choro, febre e IVAS viral deixam a MT vermelha e opaca. O achado mais específico é o abaulamento.

EstágioSintomasOtoscopia
HiperemiaDesconforto, febre baixa, alimentação okHiperemia/vascularização da MT
ExsudaçãoDor importante, febre alta (38–39 °C), recusa alimentarAbaulamento da MT
SupuraçãoAlívio da dor, alimentação voltaPerfuração + otorreia purulenta; hiperemia
Complicação (raro)Dor intensa, febre alta, toxemia, sinais do sítioAbaulamento, sinais retroauriculares

Otite externa × OMA

CritérioOtite externa difusaOtite média aguda
EstaçãoVerão, águaInverno, IVAS
IdadeTodasCrianças (6–36 m)
Tração do pavilhão / tragusDói muitoNão dói
SecreçãoFrequente, sem muco, descamativaSó se perfurar: mucopurulenta
FebreGeralmente afebrilFrequente
AudiçãoNormal (salvo edema oclusivo)Hipoacusia condutiva
TratamentoLimpeza + gota tópicaAnalgesia ± ATB sistêmico
Ajuste ao quadro do resumo

O quadro comparativo do resumo diz "OMA: sem secreção" e "OE: audição ok". São tendências, não regras: a OMA supurada tem otorreia (e a dor melhora), e a OE com CAE ocluído causa hipoacusia condutiva.

04 / Conduta na OMA

Antibiótico ou observar?

A decisão depende de certeza diagnóstica, gravidade, idade, lateralidade e otorreia. Analgesia é para todos — e costuma ser esquecida.

1
Passo 01 · Sempre
Confirmou OMA? Analgesia para todos
Abaulamento moderado/intenso ou otorreia recente (ou abaulamento leve + dor < 48 h / hiperemia intensa). Sem efusão = não é OMA.

Paracetamol, ibuprofeno ou dipirona (podem ser associados). A dor é o principal fator incapacitante.

2
Passo 02 · Idade
Tem menos de 6 meses?
< 6 meses
Antibiótico sempre. Sem opção de observação (imunidade imatura, febre sem foco, risco de complicação). Considerar avaliação ampla se febril/toxemiado.
≥ 6 meses
Siga para gravidade.
3
Passo 03 · Gravidade / otorreia
Grave ou com otorreia?
Grave = otalgia moderada a intensa, OU otalgia ≥ 48 h, OU febre ≥ 39 °C.
SIM
ATB em qualquer idade, uni ou bilateral. OMA com otorreia também → ATB.
NÃO GRAVE
Siga para idade + lateralidade.
4
Passo 04 · 6 a 23 meses, não grave
Bilateral ou unilateral?
BILATERAL
ATB.
UNILATERAL
ATB ou observação por 48–72 h — decisão compartilhada com os pais, com garantia de reavaliação. Se piorar/não melhorar → iniciar ATB.
5
Passo 05 · ≥ 24 meses, não grave
Uni ou bilateral: pode observar
OPÇÃO
ATB ou observação (48–72 h), decisão compartilhada + facilidade de contato.
ATB INDICADO
Não melhora/piora em 48–72 h → iniciar amoxicilina (ou trocar esquema se já em uso).

Válido para crianças sem síndromes, imunodeficiência, fenda palatina ou implante coclear — nessas, conduta mais intervencionista.

IdadeOMA grave* ou com otorreiaNão grave · bilateralNão grave · unilateral
< 6 mesesATBATBATB
6–23 mesesATBATBATB ou observar
≥ 24 mesesATBATB ou observarATB ou observar

*Grave: otalgia moderada/intensa, otalgia ≥ 48 h ou febre ≥ 39 °C (AAP 2013).

Qual antibiótico

Amoxicilina — 1ª escolha
80–90 mg/kg/dia ÷ 12/12 h
Se não usou amoxicilina nos últimos 30 dias, sem conjuntivite purulenta, sem alergia. Dose alta vence pneumococo com PBP alterada.
Amoxicilina + clavulanato
90 mg/kg/dia de amoxicilina (+ 6,4 mg/kg/dia clav) ÷ 12/12 h
Se amoxicilina nos últimos 30 dias, conjuntivite purulenta (Haemophilus), OMA recorrente não responsiva à amoxicilina, ou falha em 48–72 h.
Ceftriaxona
50 mg/kg/dia IM/EV · 1 a 3 dias
Falha à amox-clav, intolerância à via oral/vômitos, adesão impossível. 3 dias é superior a 1 dia na falha.
Alergia não grave à penicilina
Cefuroxima 30 mg/kg/dia ÷ 12/12 h
Ou cefdinir/cefpodoxima. Reatividade cruzada com cefalosporinas de 2ª/3ª geração é baixa.
Macrolídeo (azitro/claritro)
Só em alergia grave (tipo I)
Pouca eficácia contra pneumococo resistente e H. influenzae — não é 1ª escolha.
Duração
< 2 a ou grave: 10 dias
2–5 anos não grave: 7 dias; ≥ 6 anos não grave: 5–7 dias. Falha → troca após 48–72 h; considerar timpanocentese/especialista.
⚠ Dose — o resumo diverge

O quadro do resumo (Rotinas) aceita amoxicilina 40–50 mg/kg/dia como tratamento inicial. A AAP recomenda 80–90 mg/kg/dia (dose alta) por causa do pneumococo com resistência intermediária; a dose de 50 mg/kg/dia é usada em alguns protocolos brasileiros para regiões de baixa resistência. Em questão de prova que peça "dose alta" ou siga AAP, marque 80–90. O resumo também risca azitromicina como alternativa na alergia e coloca cefuroxima: correto para alergia não anafilática.

Distratores clássicos

Ampicilina (pior absorção oral, 4×/dia — não é a resposta), SMX-TMP e macrolídeos (resistência do pneumococo), cefalexina (1ª geração, não cobre H. influenzae), estreptomicina (absurdo). Amox-clav de primeira em criança > 2 anos sem ATB recente/conjuntivite = errado.

OMA recorrente e tubo de ventilação

Definição

OMA recorrente

  • ≥ 3 episódios em 6 meses, ou
  • ≥ 4 episódios em 12 meses com ≥ 1 nos últimos 6 meses
Prevenção

Antes do tubo

  • Vacinas pneumocócica conjugada e influenza
  • Aleitamento materno ≥ 6 meses
  • Eliminar tabagismo passivo; rever creche, chupeta, mamadeira deitada
  • Não usar ATB profilático contínuo (resistência)
Cirurgia

Tubo de ventilação (timpanostomia)

  • Considerar na OMA recorrente com efusão presente na avaliação
  • Reduz episódios; se houver otorreia pelo tubo → gota de quinolona (não ATB oral de rotina)
  • Adenoidectomia associada: re-inserção de tubo, ou ≥ 4 anos, ou sintomas nasais/obstrutivos
05 / Efusão e cronicidade

Quando a otite não vai embora.

Otite média com efusão (secretora / serosa)

O que é

Líquido sem inflamação aguda

  • Efusão na orelha média sem sinais/sintomas de infecção aguda (sem dor, sem febre, sem abaulamento)
  • Pós-OMA ou por disfunção tubária (adenoide, rinite, fenda palatina, Down)
  • Otoscopia: MT opaca, amarelada/âmbar, retraída, nível hidroaéreo/bolhas, mobilidade reduzida
  • Timpanometria tipo B (plana); audiometria com perda condutiva leve (~25–30 dB)
Manejo (criança)

Observar 3 meses

  • Espera vigilante por 3 meses — maioria resolve
  • Não usar ATB, corticoide, anti-histamínico ou descongestionante
  • Audiometria se ≥ 3 meses ou suspeita de atraso de fala/linguagem
  • Tubo de ventilação: efusão bilateral ≥ 3 meses com perda auditiva, alterações estruturais da MT, crianças de risco (Down, fenda palatina, atraso de linguagem)
No adulto

OME unilateral = olhe a nasofaringe

  • Tumor de nasofaringe obstrui o óstio da tuba
  • Nasofibroscopia obrigatória ± biópsia
  • Liga direto com otalgia referida em tabagista

Otite média crônica — simples × colesteatomatosa

OMC = processo inflamatório da orelha média com dano tecidual irreversível; classicamente perfuração timpânica, otorreia recorrente e hipoacusia (a perfuração é típica, mas não obrigatória). Fatores de risco: creche, fumantes em casa, mãe com história de otorreia, IVAS de repetição; disfunção tubária crônica.

OMC não colesteatomatosa (simples)

Perfuração central (há bordo/anel timpânico nos 360°) · otorreia intermitente.

Otorreia: mucopurulenta/serosa, intermitente, desencadeada por água no banho ou IVAS; pouco ou nada fétida.
Audição: hipoacusia condutiva proporcional à perfuração; maior se cadeia ossicular lesada.
Retração timpânica: atical (pars flácida) ou da pars tensa (posterossuperior); pode erodir ossículos e evoluir para colesteatoma.
Agentes: P. aeruginosa (mais comum), S. aureus.
Tratamento clínico: gota de ciprofloxacino (± corticoide) — cobre Pseudomonas e não é ototóxica; proteção da água; ATB sistêmico só se refratário.
Cirurgia: timpanoplastia (fechar perfuração) ± mastoidectomia; objetivos: erradicar doença, reconstruir, reabilitar audição. AASI se perda residual.

OMC colesteatomatosa

Epitélio escamoso queratinizado na orelha média, osteolítico e migratório · otorreia contínua e fétida.

Histologia: matriz (epitélio escamoso), conteúdo (queratina) e perimatriz (granulação inflamatória que reabsorve osso).
Tipos: congênito (massa branca atrás de MT íntegra, sem história de otite); adquirido primário (bolsa de retração, geralmente pars flácida/ático); adquirido secundário (migração epitelial por perfuração marginal).
Clínica: otorreia crônica, fétida, piossanguinolenta, que não melhora com tratamento clínico; hipoacusia condutiva (ou mista); pode ter otalgia, sangramento, vertigem (fístula labiríntica), paralisia facial.
Exames: audiometria pré-operatória obrigatória; TC de ossos temporais = exame de escolha (extensão, ossículos, tégmen, canal semicircular lateral, facial). RM (difusão) para recidiva/complicação intracraniana.
Tratamento: cirúrgico (timpanomastoidectomia) — não existe cura clínica. Cultura só se complicação.
★ Regra de ouro

Perfuração central = "segura" (tubotimpânica). Perfuração marginal ou atical + otorreia fétida contínua = colesteatoma ("perigosa", atico-antral) → TC e cirurgia.

06 / Complicações

Quando a otite sai do lugar.

Raras na era antibiótica, mais comuns na OMA em crianças (mastoidite) e no colesteatoma (erosão óssea). Suspeitar diante de: febre alta persistente, toxemia, otalgia intensa, cefaleia, vômitos, vertigem, paralisia facial, rigidez de nuca, alteração de consciência.

⚠ Organização corrigida

O fluxograma do resumo saiu truncado no OCR. A classificação usual é: intratemporais (dentro do osso temporal) e extratemporais, estas divididas em extracranianas e intracranianas.

Intratemporais

Dentro do osso

  • Mastoidite aguda — a mais comum. Dor, edema e hiperemia retroauricular, apagamento do sulco, pavilhão deslocado para frente e para baixo, flutuação (abscesso subperiosteal)
  • Paralisia facial periférica — deiscência do canal de Falópio (OMA) ou erosão (colesteatoma)
  • Labirintite serosa (reversível) ou supurativa (perda NS profunda + vertigem); fístula labiríntica (canal semicircular lateral, colesteatoma)
  • Petrosite — síndrome de Gradenigo: otorreia + dor retro-orbitária (V) + paralisia do VI
Extratemporais · extracranianas

Pescoço e partes moles

  • Abscesso subperiosteal retroauricular
  • Abscesso de Bezold — pus rompe a ponta da mastoide para dentro do esternocleidomastóideo
  • Abscesso zigomático
Extratemporais · intracranianas

Risco de morte

  • Meningite — a intracraniana mais comum
  • Abscesso extradural, subdural, cerebral (lobo temporal) e cerebelar
  • Trombose do seio sigmoide/lateral: febre em picos ("em agulha"), cefaleia, sinal de Griesinger (edema sobre a mastoide por trombose da veia emissária)
  • Hidrocefalia otítica

Conduta geral

1
Internar + imagem

TC de ossos temporais/crânio com contraste; RM se suspeita intracraniana (abscesso, trombose — angio-RM/venografia). Punção lombar se meningite e sem efeito de massa.

2
Antibiótico EV

Ceftriaxona (± vancomicina, ± metronidazol se intracraniano/colesteatoma; cobertura antipseudomonas se OMC).

3
Drenar a orelha média

Miringotomia/timpanotomia com tubo de ventilação + cultura. Na paralisia facial por OMA: ATB EV + miringotomia/TV (corticoide pode ser associado); não é indicação de descompressão de rotina.

4
Cirurgia quando indicado

Mastoidectomia se abscesso subperiosteal que não resolve, falha clínica em 48 h, colesteatoma, complicação intracraniana; neurocirurgia para abscessos; anticoagulação na trombose é individualizada.

Pense, depois revele

?
Criança de 2 anos, 5 dias de OMA em uso de amoxicilina, agora com orelha "de abano" e edema atrás da orelha. O que é e o que fazer?
Pense em:

Pavilhão deslocado anteroinferiormente + apagamento do sulco retroauricular.

Resposta:

Mastoidite aguda (± abscesso subperiosteal). Internar, TC com contraste, ATB EV (ceftriaxona ± clindamicina/vanco), miringotomia com tubo e cultura; drenagem/mastoidectomia se abscesso ou sem melhora em 48 h. Descartar complicação intracraniana.

?
Paralisia facial na OMA e paralisia facial no colesteatoma: por que a conduta cirúrgica difere?
Pense em:

Mecanismo: inflamação por deiscência natural × erosão óssea por massa.

Resposta:

Na OMA, o nervo inflama por contato através de deiscência do canal; drenando a orelha (miringotomia/TV) + ATB EV, a maioria recupera. No colesteatoma, há erosão e compressão por doença que só sai com bisturi → mastoidectomia precoce.

07 / Números que caem

Decore estes.

Otalgia referida
~50%
dos pacientes com otalgia
Nervos sensitivos da orelha
6
V, VII, IX, X + C2–C3 (grande auricular, occipital menor)
Otalgia no CA nasofaringe
56%
hipofaringe 26% · orofaringe até 16%
Risco oncológico
>50 a
+ tabaco, álcool, CA prévio de C&P
DTM · conservador
75%
melhora (analgesia, calor, placa)
OE difusa · incidência
1–4
casos / 100 pessoas / ano
Otomicose
≤20%
das otites externas
OEN · Pseudomonas
98%
(resumo; literatura >90%)
OEN · nervo facial
75%
dos PC acometidos; 1º sinal em ~20%
OEN · ATB
≥6 sem
internação ≥ 2 semanas se grave · cipro 750 mg 12/12 h
OMA · até 24 meses
80%
terão ≥ 1 episódio (resumo)
OMA · pico
6–36 m
2º pico clássico 4–7 anos
Efusão pós-OMA
até 3 m
(1 semana a 3 meses)
OMA grave
≥39 °C
ou dor mod./intensa ou dor ≥ 48 h
ATB sempre
<6 m
6–23 m bilateral também
Reavaliação
48–72 h
observação ou falha de ATB
Amoxicilina
80–90
mg/kg/dia ÷ 12/12 h (resumo: 40–50 também)
ATB recente
30 dias
amoxicilina nesse período → amox-clav
Ceftriaxona
50
mg/kg/dia IM/EV · 1–3 dias
Duração ATB
10 d
< 2 a ou grave · 7 d (2–5 a) · 5–7 d (≥ 6 a)
OMA recorrente
3/6 · 4/12
episódios / meses
OME · observar
3 meses
tubo se bilateral ≥ 3 m + perda auditiva
Colesteatoma · perda grave/profunda
3–4%
predomina condutiva
Audiometria normal
≤25 dB
gap aéreo-ósseo ≥ 15 dB = componente condutivo
08 / Pegadinhas de prova

Frases que parecem certas.

"Otoscopia normal exclui doença"

Exclui doença da orelha, não a causa da dor. Metade das otalgias é referida — e tumor de VADS pode se apresentar só assim.

"Toda OMA deve receber antibiótico"

Falso. ≥ 6 meses e não grave: observação é opção (6–23 m só se unilateral). O absoluto vale só para < 6 meses.

"Hiperemia da MT confirma OMA"

Falso. Choro e IVAS deixam a MT vermelha. O achado-chave é abaulamento (com efusão).

"Amox-clav é a 1ª escolha por cobrir betalactamase"

Falso, a menos que: ATB nos últimos 30 dias, conjuntivite purulenta, OMA recorrente refratária ou falha em 48–72 h.

"Efusão após 10 dias de amoxicilina = falha"

Falso. Efusão pós-OMA persiste até 3 meses. Falha = sintomas que não melhoram/pioram em 48–72 h.

"Otite externa em hígido → ATB oral"

Falso. Limpeza + gota tópica + analgesia. Sistêmico: extensão, DM/imunossupressão, OEN.

"Gentamicina/neomicina tópica em qualquer otorreia"

Falso. Com perfuração ou tubo: quinolona (não ototóxica).

"Colesteatoma responde a gotas"

Falso. Tratamento eminentemente cirúrgico; otorreia fétida que não melhora com clínico é pista.

"OME: use corticoide/descongestionante/ATB"

Falso. Espera vigilante 3 meses; tubo se persistente com perda auditiva.

09 / Questões da prova antiga

A prova real, resolvida.

Questões 7 a 12 da prova antiga de MED06663. As marcações do aluno no PDF não são gabarito — na Q9 ele circulou ampicilina, e está errado.

Prova antiga · Q7
Quais os germes mais prevalentes na otite média aguda bacteriana?
Prova antiga · Q8
Criança com quadro de otite média associada à conjuntivite bacteriana. Qual o agente etiológico mais provável?
Prova antiga · Q9
Criança de 18 meses com quadro bem determinado de OMA. Qual a conduta recomendada?
Prova antiga · Q10
Qual a conduta inicial para um paciente hígido diagnosticado com otite externa difusa aguda?
Prova antiga · Q11
A antibioticoterapia de primeira escolha para tratamento de otite média aguda, em crianças acima de 2 anos, é:
Prova antiga · Q12 · Dissertativa
Paciente com queixa de otalgia intermitente à esquerda com duração de 6 meses. A otoscopia e a microscopia não mostram nenhuma anormalidade. Nega perda auditiva. Quais os passos seguintes na sua avaliação clínica? Comente.
1
Antes de escrever: qual é o diagnóstico sindrômico e a principal preocupação?
Pense em:

Otoscopia + microscopia normais, sem hipoacusia, 6 meses, unilateral.

Resposta:

Otalgia secundária (referida/reflexa). A doença está fora da orelha, no território de V, VII, IX, X ou C2–C3. A causa mais comum é DTM; a que não pode ser perdida, sobretudo por ser unilateral e persistente, é neoplasia do trato aerodigestivo superior.

2
Que perguntas a anamnese precisa responder?
Pense em:

Percorra cada nervo e seu território.

Resposta:

Caracterizar a dor (início, intensidade, duração, tipo — choque/queimação/pressão, gatilhos, fatores de melhora/piora). Depois: ATM (dor ao mastigar, estalidos, bruxismo, cefaleia matinal), dentes (dor, cáries, 3º molar, prótese), nariz (obstrução, epistaxe, rinorreia unilateral), faringe/laringe (odinofagia, disfagia, rouquidão, sensação de corpo estranho, DRGE), pescoço (massa, cervicalgia, dor à rotação), sintomas otológicos sutis (plenitude, zumbido) e fatores de risco oncológico: idade > 50, tabagismo, etilismo, CA de cabeça e pescoço prévio, perda de peso.

3
Resposta-modelo completa (como escrever na prova)
Resposta-modelo:

Com otoscopia e microscopia normais e audição preservada, a otalgia primária é pouco provável; o quadro deve ser conduzido como otalgia referida, que responde por cerca de metade das otalgias. A orelha recebe inervação sensitiva de V (auriculotemporal), VII (intermédio), IX (Jacobson), X (Arnold) e C2–C3 (grande auricular e occipital menor); a dor pode ter origem em qualquer estrutura desses territórios.

1. Confirmar que a orelha é normal

Audiometria tonal e timpanometria (excluir disfunção tubária/efusão sutil). Se normais, reforça otalgia referida.

2. Anamnese dirigida

Características e gatilhos da dor; sintomas de ATM, dentários, nasais, faringolaríngeos (disfagia, odinofagia, rouquidão), cervicais, DRGE; e fatores de risco para carcinoma (> 50 anos, tabagismo, etilismo, CA prévio, emagrecimento).

3. Exame físico completo — nunca só a otoscopia
  • ATM: palpação, ruídos, abertura/desvio; masseter, temporal e pterigoide (via oral)
  • Oroscopia criteriosa: dentes, gengiva, tonsilas, palpação da base da língua e assoalho
  • Rinoscopia anterior e nasofibrolaringoscopia: nasofaringe (fosseta de Rosenmüller, tuba), orofaringe, hipofaringe (seios piriformes) e laringe
  • Pescoço: linfonodos, parótida/submandibular, tireoide, coluna cervical e musculatura
  • Pares cranianos
4. Exames complementares conforme suspeita

Com fatores de risco ou achado suspeito: TC e/ou RM de cabeça e pescoço (base de crânio, nasofaringe, parótida), endoscopia digestiva alta e biópsia de qualquer lesão. Radiografia/TC de ATM, avaliação odontológica ou imagem cervical conforme a hipótese; TC para processo estiloide se suspeita de Eagle.

5. Diagnósticos diferenciais e tratamento

DTM (mais comum: analgesia, calor, placa oclusal, fisioterapia), causas dentárias, sialolitíase/parotidite, faringotonsilites, DRGE, doença da coluna cervical (fisioterapia), neuralgias do trigêmeo e do glossofaríngeo (carbamazepina), síndrome de Eagle e neoplasias de nasofaringe, orofaringe, hipofaringe, laringe e língua. Trata-se a causa; não se prescrevem gotas otológicas ou antibiótico empírico. Sem causa identificada, manter seguimento e reinvestigar, especialmente em paciente de risco — otalgia unilateral persistente é tumor até prova em contrário.

10 / Quiz inédito

No estilo da prova.

Assertivas · OEN
Sobre a otite externa maligna (necrotizante), considere:

I – Trata-se de osteomielite do osso temporal e base do crânio, sendo idosos diabéticos o grupo mais suscetível.

II – O agente mais frequente é o Staphylococcus aureus, o que justifica o uso de cefalexina oral.

III – Tecido de granulação no assoalho do CAE e paralisia facial são achados que reforçam o diagnóstico.

IV – Sendo a otalgia inespecífica, o tratamento com gotas tópicas por 7 dias é suficiente na maioria dos casos.

V/F · Otites externas
Atribua V ou F:

( ) Na otite externa difusa aguda, a dor à tração do pavilhão e à compressão do tragus é característica.

( ) A otomicose costuma surgir após uso prolongado de gotas antibióticas e cursa com prurido mais do que dor.

( ) Gotas com gentamicina são seguras mesmo na presença de perfuração timpânica.

( ) A pericondrite do pavilhão acomete classicamente o lóbulo.

( ) Secreção com muco sugere origem na orelha média.

INCORRETA · Diagnóstico de OMA
Sobre o diagnóstico da otite média aguda, assinale a alternativa INCORRETA:
Vinheta · Conduta por idade
Lactente de 4 meses, febre de 38,2 °C há 24 h, irritado, com IVAS. Otoscopia: abaulamento moderado da MT direita; esquerda normal. Bom estado geral. Conduta:
Vinheta · Escolha do ATB
Menino de 3 anos tratado com amoxicilina para faringite há 15 dias. Agora com otalgia intensa bilateral, febre de 39,4 °C, abaulamento bilateral e secreção ocular purulenta. Sem alergias. Melhor escolha:
Assertivas · OMC
Sobre otite média crônica, analise:

I – O colesteatoma congênito é encontrado atrás de membrana timpânica íntegra, em paciente sem história de otites.

II – O colesteatoma adquirido secundário resulta da migração epitelial através de perfuração marginal.

III – O tratamento da otite média crônica colesteatomatosa é eminentemente cirúrgico, sendo a TC de ossos temporais o exame de escolha para avaliar extensão.

Vinheta · Complicação
Criança de 20 meses em 4º dia de amoxicilina para OMA mantém febre e passa a apresentar edema e eritema retroauricular com apagamento do sulco e pavilhão deslocado anteroinferiormente. A conduta mais adequada é:
Vinheta · Otalgia referida
Homem de 62 anos, tabagista (40 maços-ano) e etilista, com otalgia direita há 2 meses, odinofagia leve e emagrecimento de 5 kg. Otoscopia e audiometria normais. O próximo passo mais importante é:
Associação clássica
Mulher de 68 anos com otalgia esquerda intensa há 3 dias, surgimento de vesículas na concha e hoje assimetria facial com incapacidade de fechar o olho esquerdo e franzir a testa. Diagnóstico e tratamento:
11 / Revisão relâmpago

Rodar na véspera.

Responda em voz alta antes de tocar. Errou? Volte à seção correspondente.

01
Quais os 6 nervos que levam sensibilidade à orelha?

V (auriculotemporal), VII (intermédio), IX (Jacobson), X (Arnold), grande auricular (C2–C3) e occipital menor (C2).

02
Causa mais comum de otalgia referida? E a que não pode passar?

DTM/ATM. Neoplasia de VADS em > 50 anos, tabagista/etilista.

03
Agente principal da OEDA, da OEN e da OMC?

Pseudomonas aeruginosa nas três (S. aureus é o segundo; S. aureus é o principal da furunculose).

04
Qual a medida isolada mais importante na otite externa?

Limpeza meticulosa do CAE (microaspiração), seguida de gota tópica.

05
Perfil e 3 achados da otite externa maligna?

Idoso diabético/imunossuprimido; dor noturna desproporcional, granulação no assoalho do CAE, paralisia do VII. TC + internação + antipseudomonas ≥ 6 semanas.

06
Tríade do Ramsay Hunt?

Otalgia + vesículas na concha/CAE + paralisia facial periférica (± VIII). Antiviral + corticoide.

07
Trinca da OMA e o agente da otite-conjuntivite?

Pneumococo, H. influenzae não tipável, Moraxella. Conjuntivite purulenta → Haemophilus.

08
Achado otoscópico mais importante para OMA?

Abaulamento moderado a intenso da MT (ou otorreia recente). Sem efusão não é OMA.

09
Quando ATB obrigatório na OMA?

< 6 meses; qualquer idade se grave (dor moderada/intensa, dor ≥ 48 h, febre ≥ 39 °C) ou otorreia; 6–23 meses se bilateral.

10
1ª escolha e dose? Quando trocar para amox-clav?

Amoxicilina 80–90 mg/kg/dia 12/12 h. Amox-clav: amoxicilina nos últimos 30 dias, conjuntivite purulenta, falha em 48–72 h, recorrência refratária.

11
Definição de OMA recorrente e quando tubo?

≥ 3 em 6 meses ou ≥ 4 em 12 meses (≥ 1 nos últimos 6). Tubo se efusão presente na avaliação.

12
Manejo da OME na criança? E OME unilateral no adulto?

Observar 3 meses, sem medicação; tubo se bilateral ≥ 3 meses com perda auditiva. Adulto unilateral: nasofibroscopia (tumor de nasofaringe).

13
OMC simples × colesteatomatosa em 2 linhas?

Simples: perfuração central, otorreia intermitente (água/IVAS), gota de quinolona + timpanoplastia. Colesteatoma: perfuração marginal/atical, otorreia contínua fétida, erosão óssea, TC + cirurgia.

14
Complicação intratemporal e intracraniana mais comuns?

Mastoidite aguda; meningite.

15
Sinal de Griesinger e síndrome de Gradenigo?

Griesinger: edema sobre a mastoide na trombose do seio sigmoide. Gradenigo: otorreia + dor retro-orbitária (V) + paralisia do VI (petrosite).

12 / Take-Home

Pontos essenciais.

1

Otoscopia normal = procure fora

~50% das otalgias são referidas (V, VII, IX, X, C2–C3). DTM é a mais comum; tumor de VADS no tabagista > 50 anos é a que não se perde.

2

Otite externa: limpar e pingar

Pseudomonas/S. aureus, dor à tração do pavilhão. Limpeza + gota tópica (quinolona se perfuração). Sistêmico só com extensão ou imunossupressão.

3

Idoso diabético = OEN

Dor noturna, granulação no CAE, paralisia do VII. TC, internação, antipseudomonas ≥ 6 semanas.

4

OMA: abaulamento + idade decidem

< 6 m sempre ATB; grave ou otorreia sempre; 6–23 m bilateral ATB; resto pode observar 48–72 h com retorno garantido.

5

Amoxicilina, dose alta

80–90 mg/kg/dia. Amox-clav se ATB em 30 dias, conjuntivite (Haemophilus) ou falha. Nunca ampicilina, SMX-TMP ou cefalexina.

6

Crônica e complicada

Perfuração central = simples (gota + timpanoplastia). Marginal/fétida = colesteatoma (TC + cirurgia). Edema retroauricular = mastoidite: internar, TC, ATB EV, tubo.