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▦ MED06663 · Otorrinolaringologia · UFRGS
● Cai na Prova 1 · 17/09

Hipoacusia
& surdez.

Do diapasão ao audiograma: onde está a lesão (condução × neurossensorial), qual doença combina com a curva e o que fazer — no adulto (PAIR, presbiacusia, ototóxicos, surdez súbita, schwannoma vestibular, otosclerose) e na criança (triagem neonatal, causas, reabilitação). Revisada e corrigida pelo livro dos professores, Rotinas em Otorrinolaringologia (caps. 1 e 2.9–2.15), com as figuras do livro.

Aulas
03/09 + 13/08
Questões na prova antiga
5 de 30
Número-chave
25 dB
01 / Anatomia funcional mínima

Onde o som se perde.

Toda a prova de hipoacusia gira em torno de uma pergunta topográfica: a lesão está no caminho mecânico que leva a vibração até a cóclea (perda condutiva) ou no transdutor/nervo que converte vibração em impulso elétrico (perda neurossensorial)? O diapasão e o audiograma servem para responder exatamente isso.

Orelha externa
Pavilhão + CAE
Capta e conduz a onda. Lesões: cerúmen, otite externa, corpo estranho, tumores, agenesia/atresia.
Orelha média
Tímpano + ossículos + tuba
Casamento de impedância ar → líquido. Lesões: OMA/efusão, perfuração, otosclerose, colesteatoma, disjunção de cadeia.
Orelha interna
Cóclea (órgão de Corti)
Células ciliadas transformam movimento da endolinfa em potencial de ação. Lesões: presbiacusia, PAIR, ototóxicos, Ménière, súbita.
Retrococlear
Nervo coclear → tronco → córtex
VIII par, ângulo pontocerebelar, vias centrais. Lesão clássica: schwannoma vestibular (“neurinoma do acústico”).
Perda CONDUTIVA · via aérea ↓, via óssea normal
NS coclear
NS retrococlear
Corte da orelha externa, média e interna com o nervo vestibulococlear
Orelhas externa, média e interna. Siga o caminho do som: meato acústico externo → membrana timpânica → martelo, bigorna e estribo → cóclea → nervo vestibulococlear (VIII). Tudo que fica antes da cóclea gera perda condutiva; cóclea e VIII geram perda neurossensorial. Fonte: Rotinas em Otorrinolaringologia (Piltcher et al., 2015), Figura 1.1.
Orelha média, ossículos e membrana timpânica
Orelha média e ossículos. Note a base (platina) do estribo encaixada na janela do vestíbulo (oval): é exatamente o ponto que a otosclerose fixa. A tuba auditiva ventila essa cavidade; sua disfunção gera efusão e perda condutiva. Fonte: Rotinas em Otorrinolaringologia (Piltcher et al., 2015), Figura 1.2.

O livro organiza os sintomas cardeais pela origem Rotinas · cap. 1: orelha externa (otalgia, otorreia, hipoacusia condutiva, prurido); orelha média (otalgia, otorreia, hipoacusia condutiva, autofonia); labirinto anterior/cóclea (hipoacusia sensório-neural, zumbido, diplacusia, algiacusia, pressão); labirinto posterior (vertigem, tontura, desequilíbrio); nervo facial (paralisia facial).

O que é o som (o suficiente para ler um audiograma)

Frequência → Hz (eixo horizontal)

  • Vibrações por segundo. Agudo = alta frequência; grave = baixa.
  • Ouvido humano: ~20 Hz a 20 kHz; fala concentrada em 500–4.000 Hz.
  • Na cóclea há tonotopia: base = agudos, ápice = graves. Por isso ruído, ototóxicos e envelhecimento (que lesam a base primeiro) derrubam os agudos.

Intensidade → dB (eixo vertical)

  • Amplitude da onda. Escala logarítmica.
  • No audiograma, o 0 dB fica em cima e o valor cresce para baixo: quanto mais baixo o símbolo, pior a audição.
  • Limiar normal: até 25 dB.
  • Timbre: “assinatura” do som — não é medido no audiograma.

Por que a orelha média é um amplificador

1
Ar → líquido perde energia

Toda vez que a onda passa de meio aéreo para sólido/líquido, a maior parte da energia seria refletida.

2
Relação de áreas tímpano : platina do estribo ≈ 17 : 1

Concentrar a mesma força numa área menor aumenta a pressão (somado ao efeito de alavanca dos ossículos). É isso que se perde numa perfuração, efusão ou otosclerose → perda condutiva que raramente passa de ~60 dB.

3
Cóclea: células ciliadas

O órgão de Corti fica na rampa média, banhado em endolinfa (produzida pela estria vascular). 1 fileira de células ciliadas internas (verdadeiras transdutoras, aferência) e 3 fileiras de externas (amplificador coclear, em contato com a membrana tectória — são as que geram as otoemissões e as primeiras a morrer por ruído/ototóxicos). A deflexão dos cílios despolariza a célula → potencial de ação no nervo coclear.

4
Via central bilateral

Nervo coclear → núcleos cocleares → tronco → córtex temporal. A projeção é bicortical, predominantemente contralateral — por isso lesão cortical unilateral praticamente não causa surdez.

Estrutura da cóclea com rampas, órgão de Corti e nervo coclear
Interior da cóclea. Em cada espira há três rampas: vestíbulo e tímpano (perilinfa) e ducto coclear (endolinfa), onde está o órgão espiral (de Corti) sobre a membrana basilar. O nervo coclear sai pelo modíolo. Fonte: Rotinas em Otorrinolaringologia (Piltcher et al., 2015), Figura 1.3 (a, b).
Fotomicrografia de secção da cóclea
Fotomicrografia da cóclea. Identifique a espira basal (embaixo, agudos) e a apical (em cima, graves). A base é a primeira a sofrer com ruído, ototóxicos e envelhecimento. Fonte: Rotinas em Otorrinolaringologia (Piltcher et al., 2015), Figura 1.3 (c).
Via aérea × via óssea (a chave de tudo): pela via aérea (VA) o som percorre externa → média → interna; pela via óssea (VO) o osso do crânio vibra e estimula a cóclea diretamente, pulando a orelha externa e média. Logo: VO avalia a cóclea; VA avalia o sistema inteiro. Se só a VA cai → problema antes da cóclea (condutiva). Se as duas caem juntas → problema na cóclea/nervo (neurossensorial).
?
Por que a PAIR, a presbiacusia e a ototoxicidade atingem primeiro os agudos, e não os graves?
Pense em:

Tonotopia coclear e onde a energia mecânica/as drogas chegam primeiro.

Resposta:

A espira basal da cóclea codifica as altas frequências e é a região mais exposta: recebe primeiro a onda (maior estresse mecânico e metabólico) e as células ciliadas externas da base são as mais vulneráveis a radicais livres. Resultado: curvas descendentes em agudos — e a fala fica “ouvida, mas não entendida”, porque as consoantes (informação) estão nos agudos e as vogais (volume) nos graves.

02 / Classificação & anamnese

Três eixos para classificar.

1 · Quanto ao tipo Rotinas · cap. 1

  • O livro: “as perdas auditivas podem ser classificadas em três grupos: condução, sensório-neural e mista”.
  • Condutiva — orelha externa ou média.
  • Sensório-neural (neurossensorial) — coclear ou retrococlear.
  • Mista — componentes condutivo + neurossensorial na mesma orelha.
  • Complemento (fora do livro): perda psicogênica/funcional, sem lesão orgânica.

2 · Quanto ao grau

  • Média tritonal da VA (500, 1.000 e 2.000 Hz).
  • ≤ 25 normal · 26–40 leve · 41–55 moderada · 56–70 moderadamente severa · 71–90 severa · ≥ 91 profunda (Lloyd & Kaplan).
  • O Rotinas não traz tabela de graus; esta é a classificação usual em audiologia. Detalhes e calculadora na seção 04.

3 · Quanto à idade de manifestação

  • Congênita — genética (isolada ou sindrômica) ou não genética (pré, peri ou pós-natal).
  • Tardia — genética de expressão tardia.
  • Adquirida — presbiacusia, ruído, ototóxicos, infecções, súbita…

Pré-lingual × pós-lingual

  • O corte que importa na criança: a perda ocorreu antes ou depois da aquisição da linguagem.
  • Pré-lingual não diagnosticada = atraso irreversível de fala/linguagem → base da triagem neonatal (seção 12).

Causas por tipo

Condutivas

Tudo que bloqueia ou enrijece o caminho mecânico.

Orelha externa: rolha de cerúmen, otite externa, corpo estranho, tumores, agenesia/atresia do conduto.
Orelha média: otite média aguda e com efusão (causa nº 1 na criança), disfunção tubária, perfuração timpânica, barotrauma (hemotímpano/bolhas), otite média crônica/colesteatoma, otosclerose, trauma com disjunção de cadeia.
Tratamento: muitas vezes resolutivo — medicamentoso (efusão, disfunção tubária), cirúrgico (perfuração → timpanoplastia; otosclerose → estapedotomia) ou prótese auditiva.

Neurossensoriais

Lesão da cóclea ou do nervo — em geral irreversível.

Congênita não genética: pré-natal (sífilis, HIV, rubéola, CMV, toxoplasmose, ototóxicos na gestação); perinatal (anóxia, hiperbilirrubinemia); pós-natal (meningite, ototóxicos — sobretudo aminoglicosídeos).
Congênita genética: sindrômicas ~30% (Usher, Pendred, Alport…) e não sindrômicas ~70% (conexina 26 / GJB2, mutação 35delG).
Adquiridas: presbiacusia, ruído (PAIR), ototoxicidade, infecções (labirintite, meningite, otite média, sífilis, HIV), metabólicas (DM, tireoide), neurinoma do acústico, doença de Ménière, otosclerose coclear, surdez súbita, autoimune.
Tratamento: reabilitação — AASI (perdas leves a severas) e implante coclear (severas a profundas sem benefício com AASI).

Anamnese dirigida Rotinas · cap. 1

O roteiro do livro para a queixa de surdez: idade, profissão, história familiar, início dos sintomas, uni ou bilateralidade, queixas associadas (zumbido, tontura, dor ou supuração), doenças sistêmicas (diabetes, HAS, hipercolesterolemia, disfunção tireoidiana, insuficiência renal), uso de medicamentos ototóxicos e caráter progressivo ou instalação súbita. Depois: exame otorrinolaringológico de rotina e provas acumétricas com diapasão (512 ou 256 Hz). O livro também lembra o perfil de quem procura: família do idoso que não reconhece a perda, pais angustiados após falha na triagem neonatal e o paciente com surdez súbita.

PerguntaPor que importa
Idade e profissãoIdoso → presbiacusia; exposição ocupacional → PAIR (anamnese ocupacional obrigatória).
Início súbito ou insidiosoSúbito (≤ 72 h) = urgência (surdez súbita). Insidioso → presbiacusia, PAIR, otosclerose, schwannoma.
Flutuante × progressivaFlutuante com vertigem e plenitude → Ménière; flutuante em criança → otite com efusão.
Uni ou bilateral / simétrica?Perda NS unilateral ou assimétrica → afastar lesão retrococlear (RM).
Sintomas associadosOtalgia, otorreia, paralisia facial, vertigem, zumbido (acúfeno), nistagmo.
História pregressaAntecedentes pré/peri/pós-natais; TCE, barotrauma, ruído, drogas ototóxicas; doenças metabólicas, autoimunes; IST; infecções (caxumba, rubéola, sarampo, meningite).
História familiarGenética (conexina 26, otosclerose — autossômica dominante).

Otoscopia: o padrão de normalidade Rotinas · cap. 1

O livro insiste: antes de reconhecer a doença, é preciso consolidar o padrão normal. Tracione o pavilhão para retificar o conduto e segure o otoscópio apoiando a mão na cabeça do paciente (se ele se mexer, o espéculo acompanha). A membrana timpânica normal tem cinco características:

1 · Integridade2 · Transparência (semitransparente)3 · Coloração âmbar/neutra4 · Posição levemente côncava (ponto máximo no umbigo do martelo)5 · Mobilidade (otoscopia pneumática)
Tração do pavilhão auricular para retificar o conduto
Retificar o conduto. No adulto, o pavilhão é tracionado para cima e para trás antes de introduzir o espéculo. Fonte: Rotinas em Otorrinolaringologia (Piltcher et al., 2015), Figura 1.5.
Forma de segurar o otoscópio
Segurar o otoscópio. Mão apoiada na face do paciente, como uma caneta: evita trauma do conduto se houver movimento brusco. Fonte: Rotinas em Otorrinolaringologia (Piltcher et al., 2015), Figura 1.6.
Otoscopia normal com martelo, bigorna, promontório e janela redonda
Otoscopia normal. Através da membrana semitransparente se veem o cabo do martelo, a bigorna, o promontório e o nicho da janela redonda. Na maioria das hipoacusias neurossensoriais (presbiacusia, PAIR, ototoxicidade, surdez súbita) e na otosclerose, é exatamente isso que você vai ver: otoscopia normal. Fonte: Rotinas em Otorrinolaringologia (Piltcher et al., 2015), Figura 1.7.
03 / Acumetria com diapasão

Rinne & Weber, sem decoreba.

A acumetria é o exame que mais cai em vinheta. O livro é explícito Rotinas · cap. 1: “o exame padrão-ouro para determinar o tipo de perda auditiva é a audiometria. Entretanto, a surdez súbita não admite atraso no início do tratamento na espera de um exame audiológico”. Por isso o médico deve fazer o diagnóstico diferencial já na primeira consulta, com otoscopia (na surdez súbita, geralmente normal) e acumetria com diapasão de 512 ou 256 Hz — “o exame mais esclarecedor”. São três testes: comparação das vias aéreas, Weber e Rinne.

Como o livro ensina (Quadros 1.1 e 1.2) Rotinas · cap. 1

QUADRO 1.1 · Acumetria — como fazer e resultados possíveis
TesteTécnicaResultados possíveis
Comparação das vias aéreas (VAs)Diapasão vibrando, aproximado de cada orelha; comparar a intensidade percebida.VAD = VAE · VAD > VAE (mais audível à direita) · VAD < VAE (mais audível à esquerda)
WeberDiapasão apoiado na linha média da região frontal; perguntar onde ouve.Indiferente (ouve na cabeça toda) · lateralizado para a direita · lateralizado para a esquerda
RinneDiapasão apoiado na cortical óssea retroauricular e, logo em seguida, aproximado da mesma orelha; comparar.Positivo: mais audível próximo da orelha · Negativo: mais audível apoiado atrás da orelha. Resultados independentes para cada orelha.
QUADRO 1.2 · Diagnóstico do tipo de perda (padrão neurossensorial do livro)
TesteAchado na perda neurossensorial
Comparação das vias aéreasSom mais audível na orelha sem a perda (ex.: VAE > VAD)
WeberPercepção do som na orelha sem a perda (ex.: lateralizado para a esquerda)
RinneSom mais audível com o diapasão próximo da orelha bilateralmente (Rinne positivo bilateral)
Quadro 1.2 do livro: diagnóstico do tipo de perda auditiva
Quadro 1.2 original. Leia como a “assinatura” de uma perda neurossensorial à direita: VAE > VAD, Weber para a esquerda (lado bom) e Rinne positivo nas duas orelhas. É exatamente o cenário da Q24 da prova antiga. Fonte: Rotinas em Otorrinolaringologia (Piltcher et al., 2015), Quadro 1.2.

Teste de Rinne (compara VA × VO na MESMA orelha)

  • Diapasão na mastoide (VO) → em seguida à frente do conduto (VA).
  • Rinne positivo (+): VA > VO → normal ou neurossensorial (as duas vias caem juntas, a VA continua melhor).
  • Rinne negativo (−): VO > VA → perda condutiva (ou mista) naquela orelha.
  • Rotinas · cap. 2.9 Com o diapasão de 512 Hz, o Rinne fica negativo quando o gap aéreo-ósseo é maior que 15 dB; gap < 15 dB ou perda sensório-neural → Rinne positivo. Condutiva leve pode dar Rinne +.

Teste de Weber (compara as DUAS orelhas pela VO)

  • Diapasão na linha média da região frontal: “onde você ouve mais?”
  • Condutiva → lateraliza para o lado RUIM (a orelha bloqueada não sofre mascaramento pelo ruído ambiente e “retém” a vibração).
  • Neurossensorial → lateraliza para o lado BOM (a cóclea sadia percebe mais).
  • Indiferente (centro): normal, ou perda condutiva bilateral simétrica, ou NS bilateral simétrica.
  • Livro (cap. 2.9): com gap, o som lateraliza para o lado comprometido (condutiva) ou para o lado são (sensório-neural). “O diapasão deve ser sempre estimulado, pois muitas vezes confirma e até identifica erros na audiometria.”
Pegadinha — “Rinne negativo = sempre condutiva”: o resumo diz “sempre”, mas existe o Rinne falso-negativo: na cofose (anacusia) unilateral, a vibração óssea colocada na mastoide do lado surdo é transmitida pelo crânio e ouvida pela cóclea contralateral, enquanto a VA do lado surdo não é ouvida → “VO > VA” sem nenhuma lesão condutiva. A pista é o Weber, que lateraliza para o lado bom. Na prática, mascara-se a orelha oposta (caixa de Bárány) ou confirma-se na audiometria.
Simulador · lesão → acumetria esperada
Escolha o lado e o tipo de perda · o resultado atualiza na hora
Tipo de perda
Lado
Rinne OD
Weber
Rinne OE
Simulador reverso · acumetria → hipótese
É assim que a prova pergunta: “Weber para X, Rinne Y. Qual a perda?”
Rinne OD
Rinne OE
Weber

Pense, depois revele — os 4 exercícios clássicos do resumo

?
Weber lateralizado para a direita + Rinne positivo bilateral.
Pense em:

Weber à direita = condutiva D ou NS E. Qual das duas o Rinne elimina?

Resposta:

Rinne + à direita descarta condutiva D. Sobra perda neurossensorial à esquerda (Weber foi para o lado bom).

?
Weber lateralizado para a direita + Rinne negativo à direita.
Pense em:

Rinne − na D mostra componente condutivo nessa orelha. O Weber concorda?

Resposta:

Sim: condutiva lateraliza para o lado ruim. Perda condutiva à direita. (Se o Weber fosse para a esquerda com Rinne − à D, pensar em cofose D com Rinne falso-negativo.)

?
Weber indiferente + Rinne positivo bilateral.
Pense em:

Quais situações dão Rinne + nas duas orelhas e Weber central?

Resposta:

Audição normal OU perda neurossensorial bilateral simétrica — a acumetria sozinha não distingue. Precisa de audiometria. (É exatamente o idoso com presbiacusia.)

?
Weber indiferente + Rinne negativo bilateral.
Pense em:

Rinne − nas duas = componente condutivo nas duas.

Resposta:

Perda condutiva bilateral (simétrica — por isso o Weber fica central). Ex.: otite média com efusão bilateral, otosclerose bilateral.

04 / Audiometria tonal e vocal

Lendo o audiograma.

Audiometria tonal: tons puros, determina o limiar (menor intensidade ouvida) por frequência, pela VA (fone) e pela VO (vibrador na mastoide, testada de 500 a 4.000 Hz). Audiometria vocal: com palavras — SRT/LRF (limiar de reconhecimento de fala, deve ser compatível com a média tonal) e IRF (índice de reconhecimento de fala, % de palavras corretas; cai muito em lesões neurais/retrococleares).

Convenções (decorar)

  • Orelha direita = vermelho · esquerda = azul.
  • VA: O (OD) · X (OE). Com mascaramento: △ (OD) · □ (OE).
  • VO: < (OD) · > (OE). Mascarada: [ (OD) · ] (OE). O símbolo “aponta” para fora, do lado da orelha testada.
  • Seta para baixo no símbolo, sem linha ligando = ausência de resposta no volume máximo (ex.: anacusia).

Algoritmo de leitura em 3 passos

  • 1. Há perda? VA abaixo da linha de 25 dB (valor maior que 25).
  • 2. Que tipo? Olhe a VO e o gap aéreo-ósseo:
    VO normal + gap → condutiva
    VO rebaixada, VA colada (sem gap) → neurossensorial
    VO rebaixada + gap → mista
  • 3. Que grau e qual formato? Média tritonal + formato da curva (plana, descendente, entalhe em 4 kHz, entalhe de Carhart em 2 kHz na VO).
Correções ao resumo (OCR/redação): (1) o resumo diz “o eixo vertical indica amplitude e o eixo vertical a frequência” — a frequência fica no eixo horizontal; (2) “comunicação humana de 1000 a 000 Hz” — leia faixa da fala ≈ 500–4.000 Hz; (3) “som abaixo desse limiar” significa, graficamente, o símbolo desenhado abaixo da linha de 25 dB (limiar numericamente maior que 25) = perda; (4) VA e VO são diferenciadas por símbolos (O/X × </>), não por “abertos e fechados”.
O que o livro diz sobre a avaliação audiológica Rotinas · caps. 1, 2.9, 2.11, 2.12
A avaliação audiológica básica = imitanciometria + audiometria tonal + audiometria vocal. A audiometria tonal é feita por via aérea e via óssea e deve ser realizada por audiologista treinado; a vocal (LRF/SRT e IRF) costuma ser compatível com a tonal — quando o reconhecimento de fala é pior do que a tonal justificaria, pense em lesão neural/retrococlear (schwannoma, presbiacusia neural). Na PAIR, a audiometria ocupacional (só via aérea) serve para acompanhamento, mas não dá diagnóstico: sem via óssea não se identifica lesão neurossensorial; e o exame exige repouso auditivo de pelo menos 14 horas. Os audiogramas reais do livro estão junto de cada doença: otosclerose (Carhart), PAIR (gota acústica), presbiacusia (tipos de Schuknecht) e surdez congênita profunda.
Audiograma interativo
Toque num padrão · observe VA, VO e o gap sombreado
O VA OD< VO ODX VA OE> VO OEfaixa verde = ≤ 25 dBsombra = gap aéreo-ósseo

Grau da perda — média tritonal (500 · 1.000 · 2.000 Hz)

Média tonal (VA)Grau (Lloyd & Kaplan, 1978)Impacto na fala
≤ 25 dBNormalSem dificuldade significativa
26–40 dBLeveDificuldade com fala fraca ou distante
41–55 dBModeradaDificuldade na conversação normal
56–70 dBModeradamente severaFala precisa ser forte; difícil em grupo
71–90 dBSeveraSó entende fala gritada ou amplificada
≥ 91 dBProfundaPode não entender nem amplificada; depende de leitura labial
Nota sobre as classificações: o Rotinas não apresenta tabela de graus (usa apenas os termos leve, moderada, severa e profunda). O resumo de aula cita uma escala simplificada (leve 25–40 · moderada 40–60 · severa 60–90 · profunda > 90) atribuída a Davis & Silverman, e a tabela de Lloyd & Kaplan acima. Os cortes das pontas coincidem (25, 40 e 90 dB) — são esses que costumam cair. Alguns serviços usam média quadritonal (inclui 4 kHz).
Calculadora · tipo e grau
Digite os limiares (dB) de uma orelha · gap considerado significativo ≥ 15 dB
?
Por que na perda neurossensorial não existe gap, e por que a VA nunca fica melhor que a VO?
Pense em:

Por onde passa cada via até chegar ao mesmo destino.

Resposta:

As duas vias terminam na mesma cóclea. Se a cóclea está lesada, ambas caem igualmente (VA ≈ VO, sem gap). A VA passa por tudo que a VO passa e mais a orelha externa/média — logo, VA nunca pode ser significativamente melhor que a VO; se parecer, é erro técnico/mascaramento.

?
Uma perda condutiva “pura” pode ser profunda (> 90 dB)?
Pense em:

Mesmo sem tímpano e ossículos, o som ainda chega à cóclea pelo osso.

Resposta:

Não. A perda máxima por mecanismo condutivo fica em torno de 60 dB (o crânio conduz som intenso até a cóclea). Perda maior que isso implica componente neurossensorial → mista ou NS.

05 / Outros exames

Imitância, EOA, BERA.

Imitanciometria

Timpanometria + reflexo estapediano. Avalia orelha média.

Como: sonda veda o CAE, varia a pressão e mede quanto a membrana timpânica absorve/reflete o som (complacência).
Curvas (Jerger) — complemento, não detalhado no resumo:
A pico normal em 0 daPa (normal ou perda NS) · As/Ar pico baixo = sistema rígido (otosclerose, timpanosclerose) · Ad pico muito alto = sistema flácido (disjunção de cadeia, MT atrófica) · B plana = efusão na orelha média (ou perfuração/rolha — olhe o volume) · C pico deslocado para pressão negativa = disfunção tubária.
Reflexo estapediano: som intenso → contração do músculo estapédio, inervado pelo nervo facial (VII); aferência pelo VIII. Ausente em perdas condutivas (inclui otosclerose), perdas NS profundas e lesões do facial proximais ao ramo do estapédio.
Rotinas · caps. 2.9, 2.11, 2.13 Otosclerose: reflexo ausente mesmo em fase inicial; curva A no início → As com a fixação. Presbiacusia: curva A, reflexos presentes ou não conforme o grau. Ototoxicidade: reflexo mantido com recrutamento de Metz confirma lesão coclear.

Emissões otoacústicas (EOA)

“Teste da orelhinha”. Avalia as células ciliadas externas.

Como: plug no CAE emite som; a cóclea sadia responde com um “eco” (as CCE se movem) captado pelo aparelho.
Uso: triagem (screening) auditiva neonatal universal — rápido, objetivo, sem sedação.
Limites: Rotinas · cap. 2.13 presentes quando as CCE estão íntegras; diminuídas ou ausentes nas perdas acima de 30 dB, ou se há algo na orelha externa/média (vérnix, efusão) → falso “falha”. Não avalia nervo/tronco: EOA presente não exclui neuropatia auditiva/retrococlear.

PEATE / BERA

Potencial evocado auditivo de tronco encefálico. Avalia a via até o tronco.

Como: eletrodos no couro cabeludo; estímulo sonoro gera ondas I a V (I = nervo coclear distal; V = colículo inferior/saída do tronco).
Usos: (1) estimar limiar auditivo em quem não colabora (RN, lactente) pesquisando a onda V em intensidades decrescentes; (2) triagem de RN com fatores de risco; (3) rastrear lesão retrococlear — hoje a RM é o padrão para schwannoma.
Rotinas · caps. 2.14, 2.15 No schwannoma: retardo da onda V, onda I sem as demais ou ausência completa de ondas. Na surdez súbita, substitui a RM (se contraindicada) quando os limiares são melhores que 75 dB; sensibilidade comparável à RM para tumores > 1 cm.

Imagem & vestibular

Quando a topografia não fecha.

Rotinas · cap. 1 RM com gadolínio: “exame de escolha” para encéfalo, conduto auditivo interno, ângulo pontocerebelar, cerebelo e tronco → perda NS unilateral (deve ser investigada para excluir tumor do ângulo pontocerebelar), súbita, zumbido unilateral.
TC: o livro indica para trauma, otite crônica e pesquisa de fístula perilinfática.
TC de ossos temporais (outros usos): anatomia óssea — malformações cocleares, fratura de temporal, colesteatoma, otosclerose (focos na cápsula ótica), planejamento de implante coclear.
Eletronistagmografia / VNG: estimulação labiríntica para avaliar função vestibular; frequentemente associada à audiometria, pois muitas doenças afetam cóclea e vestíbulo.
Correção: o resumo afirma que “por RNM avaliamos se há líquido na orelha média”. Líquido na orelha média se avalia com otoscopia + timpanometria (curva B); RM e TC não são exames para isso. A RM é o exame para cóclea/nervo/ângulo pontocerebelar.
06 / PAIR

Perda auditiva induzida por ruído.

Rotinas · cap. 2.12 Definição do livro: diminuição progressiva da acuidade auditiva em função da exposição continuada a elevados níveis de pressão sonora. Pode ser ocupacional ou recreativa (discotecas, shows). Diferente do trauma acústico, em que a perda é causada por um som abrupto de grande intensidade; na PAIR a exposição é prolongada e de menor intensidade. Frase que cai literal: “a PAIR representa a doença profissional irreversível mais prevalente em todo o mundo”.

Exposição crônica
> 85 dB
≥ 8 h/dia (NR-15)
1º sinal
3·4·6 kHz
gota acústica
Recupera em
8 kHz
diferencia da presbiacusia
Tipo
NS
bilateral, simétrica
Teto isolada
75 / 40 dB
agudos / graves
Repouso pré-exame
≥ 14 h
afasta TTS
Zumbido
≥ 50%
frequentemente bilateral
Reversível?
Não
PTS · só TTS reverte

Fisiopatologia Rotinas · cap. 2.12

1
Comprometimento metabólico do epitélio sensorial

Especialmente das células ciliadas externas e da estrutura neural, com início na região da cóclea responsável pelas frequências de 3 a 6 kHz.

2
TTS — temporary threshold shift

Após exposições intensas e de curta duração (concerto de rock). A perda costuma ser reversível após poucos dias.

3
TTS recorrentes → PTS (a PAIR)

Irreversível: perda de CCE, degeneração das fibras nervosas cocleares e tecido cicatricial (zonas mortas) no órgão de Corti. Pode haver degeneração neural induzida por ruído mesmo sem alteração de limiares e com CCE preservadas (Hirose e Liberman).

4
Trauma acústico

Dano físico imediato proporcional à intensidade: pode romper membrana timpânica, cadeia ossicular, membranas da orelha interna e órgão de Corti. A ruptura timpânica pode absorver parte da energia que chegaria à orelha interna.

Risco significativo com exposição crônica a ruído acima de 85 dB por pelo menos 8 horas por dia; quanto maior a intensidade, menor o tempo necessário. A NR-15 (Portaria MTb 3.214/1978) fixa os limites:

TABELA 2.12.1 · Limites de tolerância (NR-15) — valores-âncora
Nível dB(A)Máx. exposição diária
858 horas
86 · 87 · 887 h · 6 h · 5 h
894 h 30 min
904 horas
91 · 92 · 93 · 943 h 30 · 3 h · 2 h 30 · 2 h
95 · 981 h 45 · 1 h 15
1001 hora
102 · 104 · 105 · 10645 · 35 · 30 · 25 min
108 · 110 · 112 · 11420 · 15 · 10 · 8 min
1157 minutos
Tabela 2.12.1 do livro com limites de tolerância ao ruído da NR-15
Tabela original. Regra prática para memorizar: 85 dB = 8 h; 90 dB = 4 h; 100 dB = 1 h; 115 dB = 7 min (acima disso, sem exposição permitida sem proteção). Fonte: Rotinas em Otorrinolaringologia (Piltcher et al., 2015), Tabela 2.12.1.

Quadro clínico Rotinas · 2.12

  • Principal sintoma: perda auditiva, que pode vir com zumbido (em pelo menos metade, frequentemente bilateral).
  • NS (lesão no órgão de Corti), evolução lenta, progressiva, bilateral e simétrica, dificilmente profunda.
  • Discriminação auditiva normal ou pouco alterada.
  • Fase inicial: zumbido, cefaleia e tontura temporários; depois, piora do zumbido e leve queda da discriminação no ruído; algiacusia e plenitude aural.
  • A progressão é interrompida quando o indivíduo se afasta do ruído.
  • Extra-auditivas: comportamentais (isolamento, irritabilidade, concentração), neurológicas (sono, tremores, cefaleia, náusea), digestivas (dor abdominal, gastrite), vestibulares; ↑ PA, taquicardia, ↑ cortisol, glicemia e adrenalina.

Investigação Rotinas · 2.12

  • Anamnese clínica + anamnese ocupacional (todas as atividades, máquinas, produtos químicos, acidentes, uso de EPI) + recreativa (arma de fogo, instrumentos, shows).
  • Otoscopia normal; acumetria (Rinne e Weber).
  • Exame principal: audiometria tonal aéreo-óssea + LRF/SRT, IRF e pesquisa de recrutamento.
  • PEATE e EOA na suspeita de simulação.
  • Audiometria ocupacional (só VA) acompanha, mas não diagnostica. Repouso auditivo de ≥ 14 h antes de qualquer audiometria.

O audiograma da PAIR Rotinas · Fig. 2.12.1

Audiograma característico da PAIR ao longo de 1 a 39 anos de exposição
Gota acústica e sua evolução. Com 1–2 anos de exposição, surge o entalhe em 4 kHz (linha cinza escura), com recuperação em 8 kHz. Com 5–8 e 15–19 anos, o entalhe aprofunda em 3, 4 e 6 kHz. Só após 35–39 anos (vermelho) a queda atinge 2 kHz — mas note que o 8 kHz continua melhor que o fundo da gota. Critério do livro para fase inicial: média de 500–1.000–2.000 Hz melhor que a média de 3.000–4.000–6.000 Hz, e 8 kHz melhor que o ponto mais profundo da gota. Fonte: Rotinas em Otorrinolaringologia (Piltcher et al., 2015), Figura 2.12.1.
Pérolas numéricas do livro: a PAIR isolada dificilmente passa de 75 dB nas altas frequências e 40 dB nas baixas (combinada à presbiacusia, pode piorar). A velocidade de perda é maior nos primeiros 10 a 15 anos de exposição e diminui à medida que a perda se agrava. A localização exata da gota depende da frequência do ruído e do comprimento do conduto.
Tratamento = prevenção. Rotinas · 2.12 “Não existe tratamento clínico ou cirúrgico para a PAIR, por isso a chave é a prevenção.” Instalada a perda, o único caminho é a reabilitação com AASI, quando indicado. Nas empresas: equipe multiprofissional e Programas de Conservação Auditiva (PCA) — reconhecimento e avaliação de riscos, gerenciamento audiométrico, proteção coletiva, EPI, educação e motivação, gerenciamento de dados e avaliação do programa.
Diagnóstico diferencial (NS bilateral simétrica em agudos): infecciosas (sarampo, meningite, sífilis, toxoplasmose, rubéola), ototoxicidade (medicamentos ou produtos químicos), traumas sonoros (explosão, arma de fogo), barotrauma, trauma craniano, metabólicas (diabetes, hipotireoidismo, dislipidemia), autoimunidade e presbiacusia — que muitas vezes coexiste.
“Teoria versus prática” do livro: o diagnóstico definitivo de PAIR ocupacional somente pode ser fornecido pelo médico do trabalho, único capaz de avaliar o nexo causal entre a perda e a exposição ocupacional.
07 / Presbiacusia

“Ouço, mas não entendo.”

Rotinas · cap. 2.11 Perda da capacidade de perceber ou definir sons como parte do envelhecimento. Causa mais comum de deficiência auditiva em adultos, afetando ~30% dos indivíduos entre 60 e 69 anos. Definição que cai literal: perda auditiva do tipo neurossensorial, bilateral, simétrica entre as orelhas e de progressão lenta, conforme o avançar da idade.

Suspeita e diagnóstico Rotinas · 2.11

  • ~60 anos ou mais com dificuldade auditiva; não é raro a queixa partir da família ou dos cuidadores.
  • “Ouço, mas não entendo”; dificuldade de localizar a fonte sonora.
  • Começa nos agudos; ao atingir 2–4 kHz, piora a compreensão da fala (é onde estão as consoantes).
  • Exame clínico sem alteração característica. A MT pode estar opaca, sem brilho (“tímpano senil”), mas sem correlação com a perda.
  • Confirmação: imitanciometria + audiometria tonal + vocal. Timpanometria tipo A de Jerger; reflexos presentes ou não conforme o grau.
  • Tonal descendente para os agudos, com simetria entre as orelhas (dado importante); vocal geralmente compatível com a tonal.

Tratamento Rotinas · 2.11

  • Nenhum tratamento restabelece a audição (antioxidantes, fármacos, terapia genética e células-tronco sem resultado definitivo).
  • Principal: reabilitação auditiva com AASI — retroauriculares (minirretro/adaptação aberta), intra-aurais e intracanais (microcanais, canal invisível); analógicos ou digitais.
  • Perda severa ou profunda bilateral: implante coclear — eficaz, melhora qualidade de vida e é seguro no idoso.
  • Comunicação: conversar olhando de frente, falar clara e pausadamente, repetir quando solicitado.
  • Impacto: isolamento social, depressão; a deficiência auditiva no idoso é fator acelerador do declínio cognitivo.
Contribuem para o declínio, de forma conjunta e difícil de separar: suscetibilidade genética, doenças metabólicas, doenças otológicas, ruído e ototóxicos ao longo da vida, além do declínio das vias auditivas centrais (que piora ainda mais o reconhecimento de fala).

Tipos histológicos (Schuknecht) Rotinas · cap. 2.11

Corte transversal da cóclea
Corte transversal da cóclea. Na parede lateral está a estria vascular (alvo da presbiacusia estrial); sobre a membrana basilar, o órgão de Corti (sensorial); no modíolo, os neurônios do gânglio espiral (neural). Fonte: Rotinas em Otorrinolaringologia (Piltcher et al., 2015), Figura 2.11.1.
Detalhe do órgão de Corti e membrana tectória
Detalhe do órgão de Corti. Membrana tectória sobre as células ciliadas. Cada tipo de presbiacusia corresponde a uma dessas estruturas envelhecendo mais que as outras. Fonte: Rotinas em Otorrinolaringologia (Piltcher et al., 2015), Figura 2.11.2 (Projeto Homem Virtual).
TipoLesãoPista audiológica
1 · SensorialPerda de células sensoriais na extremidade basal da cóclea; não se estende a outras regiões. É a causa menos importante de perda relacionada ao envelhecimento.Rebaixamento nos agudos (queda abrupta)
2 · NeuralPerda progressiva de neurônios ao longo de toda a cóclea e também nas vias centraisBaixo índice de reconhecimento de fala
3 · EstrialAtrofia irregular da estria vascular, sobretudo giros médio e apicalCurva plana ou queda suave nos agudos, reconhecimento de fala preservado
4 · Condutivo-coclearHipotética, diagnóstico de exclusão: alteração de ressonância do ducto coclear + menor elasticidade da membrana basilarTraçado gradual descendente
5 · MistaCombinação de dois ou mais tipos — o achado mais comum na práticaSobreposição dos traçados
6 · IndeterminadaTraçados sem correlação histológica consistente — ~25% dos casos
Traçados audiométricos das lesões sensorial, estrial e condutivo-coclear
Três lesões isoladas. Sensorial (traço longo): plano e depois despenca nos agudos. Estrial (traço curto): plano em todas as frequências. Condutivo-coclear (traço-ponto): desce gradualmente. Eixo vertical = perda (quanto mais baixo, pior). Fonte: Rotinas em Otorrinolaringologia (Piltcher et al., 2015), Figura 2.11.3.
Curva resultante do somatório das lesões na presbiacusia
Somatório das lesões (o que se vê no consultório). Descida suave nas frequências baixas e médias e queda mais acentuada nos agudos: é a curva “descendente” clássica do idoso, resultado da presbiacusia mista. Fonte: Rotinas em Otorrinolaringologia (Piltcher et al., 2015), Figura 2.11.4 (adaptada de Schuknecht e Gacek).
Modelos de aparelhos de amplificação sonora individual
Modelos de AASI. Da esquerda para a direita: retroauricular convencional, minirretro de adaptação aberta, intra-aural e intracanal. O livro lembra que muitos idosos com indicação ficam sem reabilitação por falta de acesso, não uso ou pouca valorização da perda. Fonte: Rotinas em Otorrinolaringologia (Piltcher et al., 2015), Figura 2.11.5.
08 / Ototoxicidade

Iatrogenia na orelha interna.

Rotinas · cap. 2.13 Afecções iatrogênicas por drogas que lesam a orelha interna, no sistema auditivo (surdez definitiva ou reversível) e/ou vestibular (vertigem, náuseas e vômitos, nistagmo, até ataxia). As lesões são, na maioria das vezes, irreversíveis: destruição progressiva das células ciliadas externas da cóclea; no vestíbulo, células ciliadas das cristas das ampolas e das máculas do sáculo e utrículo.

Tabela 2.13.1 — grupo de fármacos ototóxicos Rotinas · cap. 2.13

TABELA 2.13.1 · Transcrição fiel do livro
GrupoCocleotóxicoVestibulotóxico
AminoglicosídeosAmicacina · Neomicina · Canamicina · NetilmicinaEstreptomicina · Gentamicina · Tobramicina
Outros antibióticosEritromicina (reversível) · Cloranfenicol (tópico)Ampicilina e cefalosporinas · Minociclina · Vancomicina · Lincomicina · Espectinomicina
AntineoplásicosCisplatina · Mostarda nitrogenada · Metotrexato · Vincristina
Diuréticos (de alça)Furosemida · Ácido etacrínico · Bumetanida
Anti-inflamatóriosSalicilatos · Indometacina · Ibuprofeno
BetabloqueadoresPropranolol · “Proctolol” (practolol)
OutrosQuinino · Contraceptivo oral
Desinfetantes e antissépticos tópicosClorexidina · Benzalcônio · Iodo · Iodine · Iodofórmio · Álcoois (etanol, propilenoglicol) — cocleo e vestibulotóxicos quando atingem a orelha média com MT perfurada
Tabela 2.13.1 do livro: grupo de fármacos ototóxicos
Tabela original. Atenção às colunas: no livro, estreptomicina, gentamicina e tobramicina são as vestibulotóxicas; as demais aminoglicosídeos são cocleotóxicas, e a netilmicina é a de menor ototoxicidade. Fonte: Rotinas em Otorrinolaringologia (Piltcher et al., 2015), Tabela 2.13.1.
Aminoglicosídeos
Irreversível · 9,4–17,24%
Os mais usados e estudados (gram-negativos, baratos). Mecanismo principal de lesão de célula ciliada. Suscetibilidade genética mitocondrial (A1555G do MT-RNR1, cap. 2.10).
Cisplatina
20–90% adultos · 50–90% crianças
Antineoplásico cocleotóxico clássico (com mostarda nitrogenada, metotrexato, vincristina).
Diuréticos de alça
Reversível · furosemida 6,4%
Furosemida, ácido etacrínico, bumetanida (o texto cita também indapamida). Agem na estria vascular; potencializam os aminoglicosídeos quando usados juntos.
Salicilatos / AINE
Aspirina e salicilatos: reversíveis
Indometacina, ibuprofeno e quinino podem causar lesão coclear. Salicilatos agem na estria vascular (alteração iônica da endolinfa), por isso revertem.
Eritromicina
Cocleotóxica · reversível
Principalmente em adultos; mecanismo desconhecido.
Contraceptivo oral
Progressiva e irreversível
Citado pelo livro como causa de toxicidade coclear.
Gotas otológicas / antissépticos
Incidência 3,4% (gotas)
Atravessam a janela redonda se a MT está perfurada. Proteger a orelha média com algodão hidrófobo na antissepsia; gotas em dose segura, pelo menor tempo, evitando perfurações traumáticas.
O livro (Rotinas) lista ampicilina, cefalosporinas, lincomicina, espectinomicina, betabloqueadores e contraceptivo oral como ototóxicos; a literatura atual considera essas associações fracas (o próprio livro diz “poucas referências”), e alguns textos classificam a tobramicina como predominantemente cocleotóxica. Para a prova, siga a Tabela 2.13.1 do livro.

Fisiopatologia Rotinas · cap. 2.13

1
Receptores fosfolipídicos

Aminoglicosídeos e cisplatina ligam-se aos polifosfoinositídeos da membrana da célula ciliada → bloqueio de canais de cálcio → lesão.

2
Quelação de ferro → radicais livres

Complexo metabólito-ferro oxidativo gera H₂O₂, O₂⁻ e HO⁻ → alterações ciliares, edema, vacuolização, enucleação e apoptose.

3
Estria vascular (diuréticos, salicilatos)

Alteram composição iônica e hídrica da endolinfa; afastada a droga, cessa a alteração → reversível.

4
Ação tópica

Gotas e antissépticos atravessam a membrana da janela redonda e matam células ciliadas cocleares e vestibulares.

Fluxograma da fisiopatologia da ototoxicidade
Duas vias até a apoptose. À esquerda: ligação a receptores → canais de cálcio → morte celular. À direita: metabólito + ferro → radicais livres → morte celular. É por isso que quelantes de ferro e antioxidantes são estudados como otoprotetores. Fonte: Rotinas em Otorrinolaringologia (Piltcher et al., 2015), Figura 2.13.2.
Microscopia eletrônica de cóclea normal de cobaia
A · Cóclea normal (cobaia). Fileiras regulares de estereocílios em “V” das células ciliadas externas. Fonte: Rotinas em Otorrinolaringologia (Piltcher et al., 2015), Figura 2.13.1A.
Microscopia eletrônica de cóclea lesada por amicacina
B · Após amicacina 400 mg/kg/dia por 10 dias. Lesão extensa das CCE: restam só cílios esparsos e desorganizados. Fonte: Rotinas em Otorrinolaringologia (Piltcher et al., 2015), Figura 2.13.1B (adaptada de Costa et al.).
Crista ampular normal de cobaia
C · Crista da ampola do canal semicircular superior, normal. Fonte: Rotinas em Otorrinolaringologia (Piltcher et al., 2015), Figura 2.13.1C.
Crista ampular após estreptomicina
D · Após estreptomicina 700 mg/kg/dia por 10 dias. O livro descreve diminuição acentuada do número de cílios: a estreptomicina é vestibulotóxica. Fonte: Rotinas em Otorrinolaringologia (Piltcher et al., 2015), Figura 2.13.1D.
Ductos semicirculares, ampola, crista e célula ciliada
Onde a droga vestibulotóxica age. Crista dentro da ampola, com a cúpula e as células ciliadas; o movimento da endolinfa deflete os estereocílios. Destruídas bilateralmente, o reflexo vestíbulo-ocular se perde → oscilopsia e desequilíbrio no escuro. Fonte: Rotinas em Otorrinolaringologia (Piltcher et al., 2015), Figura 1.4.
TABELA 2.13.2 · Principais sinais e sintomas
AuditivosVestibulares
Surdez neurossensorial · Zumbido · Plenitude auricularVertigens · Desequilíbrios · Nistagmo · Náuseas e vômitos · Oscilopsia (“osciloscopia” no livro: incapacidade de fixar o olhar, embaçamento) · Marcha atáxica · Dificuldade para caminhar no escuro · Intolerância à rotação da cabeça

Diagnóstico Rotinas · 2.13

  • Na maioria dos casos, na atenção primária, pelos sintomas; anamnese medicamentosa sempre (zumbido, hipoacusia uni ou bilateral, plenitude, vertigem, desequilíbrio em quem usa ou usou ototóxico).
  • Criança com atraso de fala que recebeu antibiótico EV: pensar em ototóxico.
  • Grau depende de concentração, duração e associação; perda rápida ou progressiva.
  • Exame ORL em geral normal. Audiometria tonal, vocal, de altas frequências e imitanciometria (> 4–5 anos): NS uni ou bilateral, agudos primeiro, queda da discriminação.
  • Critério de ototoxicose: perda NS de 25 dB em uma ou mais frequências entre 250 e 8.000 Hz.
  • Crianças menores: EOA (transientes e produto de distorção) e PEATE. Vestíbulo: eletronistagmografia (hiporreflexia a arreflexia).

Prevenção, monitoração e tratamento Rotinas · 2.13

  • “A prevenção é a medida mais segura.”
  • Pacientes de risco: avaliação auditiva e vestibular antes do tratamento e a cada dois dias durante, olhando as altas frequências (5.000–8.000 Hz).
  • Alterou? Adequar a dose ou substituir a droga.
  • EOA são grandes aliadas na monitoração à beira do leito e na UTI neonatal.
  • Lesão instalada: perda parcial → AASI; perda total → implante coclear; vestibular → depressores labirínticos + reabilitação labiríntica (compensação central).
  • Otoprotetores (deferoxamina, ácido alfalipoico, amifostina, tiossulfato de sódio, glutationa, ginkgo): promissores em animais, insatisfatórios em humanos.

Fatores de risco — adultos (Tab. 2.13.3)

  • Sintomas auditivos e vestibulares prévios
  • Insuficiência renal e hepática
  • Associação de ototóxicos (ex.: aminoglicosídeo + furosemida)
  • Associação de aminoglicosídeos e ruídos
  • Tratamento prolongado · Hereditariedade · Desnutrição · Mau estado geral

Fatores de risco — crianças e neonatos

  • Prematuridade · Baixo peso
  • Hiperbilirrubinemia · Hipoxia periparto
  • Exposição a ruídos
  • Infecções neonatais graves · Hereditariedade · Desnutrição · Mau estado geral
  • O livro destaca também idosos e crianças em idade pré-linguística como muito suscetíveis.
09 / Surdez súbita

Emergência otológica.

Definição (cai literal) Rotinas · cap. 2.15: perda neurossensorial de pelo menos 30 dB em três frequências consecutivas no exame audiométrico, instalada em período não superior a 72 horas. Em 90% não se determina a causa (forma idiopática, chamada simplesmente “surdez súbita”, SS).
Idiopática
90%
10–15% com causa definida
Incidência
5–20
/100 mil hab/ano
Das queixas otológicas
2–3%
EUA · 4 mil casos/ano
Pico
5ª–6ª déc.
sem predomínio de sexo
Bilateral
< 2%
sequencial · sempre investigar
Recuperação espontânea
~60%
em 2 semanas
Tumor APC na RM
2,7–10%
sobretudo schwannoma
Zumbido / vertigem
68–91% / 23–43%
vertigem = pior prognóstico
Bilateral denota causa subjacente: trauma, meningoencefalite, meningite carcinomatosa, doenças autoimunes (LES, granulomatose de Wegener, síndrome de Cogan). Causas definidas, em ordem decrescente: infecciosas > otológicas > traumáticas > vasculares/hematológicas > neoplásicas. Causas otológicas lembradas pelo livro: Ménière, otosclerose, aqueduto vestibular alargado.

Investigação diagnóstica Rotinas · Fig. 2.15.1

Fluxograma de investigação diagnóstica da surdez súbita
O algoritmo do livro. (1) Clínica: perda com CAE livre, MT normal e Weber lateralizado para a orelha contralateral. (2) Audiometria tonal: NS ≥ 30 dB em 3 frequências consecutivas. (3) Afastar patologia retrococlear: RM com contraste ou protocolo FIESTA; se contraindicada, PEATE ou TC com contraste. (4) Laboratório direcionado pela anamnese, não de rotina. Fonte: Rotinas em Otorrinolaringologia (Piltcher et al., 2015), Figura 2.15.1.
1
Na emergência: otoscopia + acumetria

“Ferramentas simples e capazes de orientar a conduta, ainda na emergência, mesmo sem a comprovação audiométrica, permitindo não retardar o início do tratamento.” NS inferida por: conduto livre, MT normal, Weber para a orelha oposta, Rinne positivo.

2
Audiometria: diagnóstico e prognóstico

Perda em graves = melhor potencial de recuperação; perdas planas e profundas = pior prognóstico.

3
Anamnese detalhada

Tempo e forma de início, trauma ou infecção viral antes, caráter progressivo ou flutuante, sintomas vestibulares, outros déficits neurológicos.

4
RM: o único exame universal além da audiometria

RM com gadolínio: sensibilidade e especificidade ~100% para tumores de até 3 mm. Sem gadolínio (ex.: insuficiência renal): sequências T2 CISS/FIESTA, sem perda de sensibilidade e mais custo-efetivas. TC contrastada tem baixa sensibilidade para tumores < 1,5 cm; PEATE só se limiares melhores que 75 dB (bom para tumores > 1 cm).

5
Laboratório: não de rotina

Alguns serviços pedem glicemia, colesterol, triglicerídeos, tireoide, VDRL/FTA-ABS (e VDRL no liquor se forte suspeita de otossífilis), Lyme; mas a diretriz norte-americana faz forte recomendação contra exames laboratoriais de rotina.

Etiopatogenia: quatro teorias, nenhuma comprovada

Viral (IVAS prévia, herpes, caxumba, rubéola; falta prova de invasão)Vascular (artérias terminais; oclusão irreversível após 60 min; pouca prova histológica)Ruptura de membranas (Reissner; Simmons, 1968)Autoimune (linfócitos, C3)

Tratamento Rotinas · cap. 2.15

TABELA 2.15.1 · Terapia baseada em evidências
TerapiaGrauRecomendação
Corticoterapia oralBOpção
Corticoterapia intratimpânicaBOpção
Oxigenoterapia hiperbáricaBRecomendação
Outros (vasodilatadores, trombolíticos, vasoativas, antivirais)BRecomendação contra
QUADRO 2.15.1 · Fatores prognósticos
FatorComo pesa
Atraso diagnósticoPior, sobretudo > 1 semana
Severidade da perdaSevera/profunda: pior
Curva audiométricaGraves: melhor · plana/profunda: pior
VertigemPior prognóstico comprovado

Graus da tabela: opção = pequena vantagem de um tratamento sobre outro; recomendação = benefícios superam riscos, evidência não forte; recomendação contra = riscos superam benefícios.

Corticoide oral (1ª escolha na prática)
Prednisona/prednisolona 1 mg/kg/dia · máx. 60 mg/dia
Dose única pela manhã, 7 a 14 dias em dose plena, seguida de redução progressiva pelo mesmo período. Maior benefício nas primeiras 2 semanas; pequena melhora com atraso de 4–6 semanas. Evitar em diabetes, HAS não controlada e glaucoma → alternativa intratimpânica.
Corticoide intratimpânico
Dexametasona 4–24 mg/mL ou metilprednisolona 32–62,5 mg/mL
0,3–0,8 mL no quadrante posteroinferior, a cada 3–7 dias, 3–4 sessões (ou via tubo de ventilação). No Brasil: metilprednisolona 40 mg/mL, 0,5 mL por semana. Ganha espaço como alternativa a quem não pode usar sistêmico e como resgate; equivalente ao oral em altas doses. Riscos: perfuração, vertigem transitória, reflexo vasovagal.
Oxigenoterapia hiperbárica
100% O₂ > 1 ATA
Mais usada na Europa; custo alto e barotrauma. Possível benefício nos limiares, sobretudo em perdas severas/profundas e associada ao corticoide; significância clínica obscura.
Antivirais
Aciclovir, valaciclovir
Cochrane: sem benefício adicional ao corticoide. Diretriz AAO-HNS 2012 contra uso rotineiro. O livro reconhece que, na prática, ainda são muito usados (curto, bem tolerado).
Vasodilatadores, vasoativos, trombolíticos, antioxidantes
Não usar de rotina
Sem superioridade ao placebo; riscos de alergia, sangramento, arritmia, hipotensão, interações.
Sem recuperação
Reabilitação
AASI, implantes de ancoragem óssea, implantes de orelha média ou implante coclear, conforme o grau.
O livro (Rotinas, com base na diretriz AAO-HNS 2012) classifica a oxigenoterapia hiperbárica como “recomendação” e o corticoide oral/intratimpânico como “opção”, e cita que iniciar em 7–10 dias talvez não altere o resultado; a atualização da diretriz (2019) passou a tratar a hiperbárica como opção (associada ao corticoide, nas primeiras semanas). Para a prova, use a Tabela 2.15.1 do livro e a mensagem central: diagnóstico clínico na emergência e corticoide sistêmico o quanto antes.

Fluxograma prático do paciente que chega dizendo “acordei sem ouvir de um lado”.

1
Passo 01 · Otoscopia
Há causa condutiva visível?
O livro lembra: rolha de cerúmen e otite média com efusão também dão plenitude e hipoacusia unilateral súbita.
SIM
Tratar a causa (remover cerúmen, tratar otite). Não é “surdez súbita” pela definição.
NÃO
CAE livre e MT normal → siga para a acumetria.
2
Passo 02 · Acumetria (na emergência)
Condutiva ou neurossensorial?
Surdez súbita NS à direita: Rinne + bilateral, Weber lateraliza para a ESQUERDA (orelha oposta).
Padrão NS
Presumir SS → iniciar tratamento sem esperar a audiometria.
Padrão condutivo
Weber para o lado afetado, Rinne − → rever orelha média (efusão, otosclerose).
3
Passo 03 · Anamnese dirigida
Há “bandeiras” de causa definida?
Tempo e forma de início, trauma, infecção viral prévia, flutuação, vertigem, outros déficits neurológicos, bilateralidade.
Déficit neuro / bilateral
Meningoencefalite, meningite carcinomatosa, autoimune (LES, Wegener, Cogan), AVC de circulação posterior → investigação urgente.
Causas por ordem
Infecciosas > otológicas > traumáticas > vasculares/hematológicas > neoplásicas.
4
Passo 04 · Tratar já
Corticoide
Quanto mais precoce, melhor: é isso que torna a SS emergência médica.
1ª linha na prática
Prednisona 1 mg/kg/dia (máx. 60 mg), dose única matinal, 7–14 dias plena + desmame pelo mesmo período.
Contraindicação / resgate
Corticoide intratimpânico (DM, HAS descontrolada, glaucoma; ou sem resposta). Hiperbárica: recomendação B no livro.
5
Passo 05 · Confirmar e investigar
Audiometria + RM
Audiometria confirma (≥ 30 dB, 3 frequências) e dá prognóstico. RM é o único exame universal além dela.
RM com gadolínio / FIESTA
Afastar patologia retrococlear — tumor do ângulo pontocerebelar em 2,7–10%, sobretudo schwannoma vestibular.
Prognóstico
~60% recuperam espontaneamente. Pior: atraso, perda severa/profunda, curva plana, vertigem. Melhor: perda em graves.
10 / Schwannoma vestibular

O zumbido que pede ressonância.

Rotinas · cap. 2.14 Tumor benigno das células de Schwann que envolve o nervo vestibulococlear no ângulo pontocerebelar e no meato acústico interno. “Neuroma do acústico” é nome incorreto: o tumor surge mais comumente da porção vestibular do VIII par.

Tumores do APC
~90%
o mais comum da região
Dos tumores intracranianos
6%
prevalência
Idade / sexo
~50 anos
mulheres 2:1
Esporádico
95%
5% neurofibromatose tipo 2
Perda auditiva unilateral
95%
sintoma principal
Manifesta-se como súbita
até 26%
mas só 1–2% das SS são SV
Zumbido
70%
agudo e contínuo
Desequilíbrio / vertigem
50% / 20%
trigêmeo 8%

Quadro clínico por tamanho Rotinas · 2.14

  • Intracanalicular: só sintomas do VIII — perda auditiva, zumbido, vertigem.
  • Avança para o APC: a perda piora e se instala desequilíbrio constante.
  • Comprime o tronco: sintomas do trigêmeo (dor e parestesia no terço médio da face).
  • Hidrocefalia: alterações visuais e cefaleia intensa.
  • Facial: alteração é doença avançada. Sinal de Hitselberger = perda de sensibilidade na parede posterior do conduto e na concha.
  • Apresentação mais tradicional: perda NS progressiva e unilateral.

Diagnóstico Rotinas · 2.14

  • Audiometria: perda progressiva ou súbita; o mais característico é a discriminação pobre, não compatível com a perda. Reflexo estapédico pode estar ausente.
  • PEATE: retardo da onda V, onda I sem as demais, ou ausência completa de ondas.
  • Vestibular: hipofunção/arreflexia do lado da lesão.
  • TC: alargamento do meato acústico interno; só mostra lesões > 6 mm (sensibilidade 36% no CAI, 68% no APC).
  • RM com contraste venoso (T1): exame ideal — sensibilidade 100%; imagem em “sorvete” (cone no CAI, bola no APC); cistos internos em até 15%.
  • Tamanho (maior eixo no APC): intracanalicular · < 1 cm pequeno · 1–2,5 cm médio · 2,5–4 cm grande · > 4 cm gigante.
TC mostrando dilatação do conduto auditivo interno à direita
TC: conduto auditivo interno alargado à direita. Compare os dois lados — a assimetria do CAI é o sinal indireto do tumor. Lesões menores que 6 mm não aparecem. Fonte: Rotinas em Otorrinolaringologia (Piltcher et al., 2015), Figura 2.14.1.
RM com pequeno schwannoma vestibular intracanalicular direito
RM (T1 com contraste): pequeno schwannoma intracanalicular direito. Note a captação intensa e bem delimitada dentro do conduto — este tumor seria invisível na TC. Fonte: Rotinas em Otorrinolaringologia (Piltcher et al., 2015), Figura 2.14.2.
Neurofibromatose tipo 2: autossômica dominante, 1:30.000–50.000. Praticamente todos terão schwannoma vestibular bilateral, com manifestação média aos 31 anos. A NF1 é muito mais comum, mas raramente cursa com schwannoma vestibular (< 2%).
Diagnóstico diferencial (tumores do APC): meningioma (2º mais comum; imagem parecida, mas com cauda dural e hiperostose), cisto aracnoide (não realça, não entra no CAI), lesão epidermoide (não realça, restringe à difusão), schwannoma facial e lipoma (hiperintenso em T1 e T2, some na supressão de gordura).

Tratamento Rotinas · cap. 2.14

Três opções

  • Acompanhamento com imagens seriadas — a taxa de crescimento é baixa e menos de 1% dos tumores acaba em cirurgia.
  • Cirurgia — decide-se por uni/bilateralidade, idade, tamanho e grau da perda.
  • Radiocirurgia estereotáxica / Gamma Knife — objetivo é impedir o crescimento, não eliminar o tumor. Indicações: > 65 anos, contraindicação clínica à cirurgia, tumor < 3 cm, tumor no único lado com audição preservada.

Quando operar

  • Pequenos (< 2 cm) com boa audição: cirurgia para preservar audição ou acompanhamento — decisão do paciente.
  • Pequenos com audição ruim: tendência ao acompanhamento conservador.
  • Grandes (> 2 cm) em < 65 anos saudáveis: remoção cirúrgica (evitar efeito de massa).
  • Compressão de tronco ou hidrocefalia: cirurgia independentemente da idade.
  • Vias: fossa média, retrossigmóidea e retrolabiríntica preservam audição; translabiríntica não.
Fluxograma de escolha da via cirúrgica no schwannoma vestibular
Escolha da via cirúrgica. Com boa audição: < 1,5 cm → fossa média; 1,5–2,5 cm → retrossigmóideo; > 2,5 cm → translabiríntico. Com audição ruim: translabiríntico (não há audição a preservar). Fonte: Rotinas em Otorrinolaringologia (Piltcher et al., 2015), Figura 2.14.3 (adaptada de Jackler e Pfister).
“Teoria versus prática”: a maioria dos casos ainda chega em estágio avançado porque os profissionais de saúde não valorizam os sintomas iniciaisassimetria de audição e zumbido unilateral devem sempre ser investigados.
11 / Otosclerose

O estribo que não vibra.

Rotinas · cap. 2.9 Osteodistrofia que acomete exclusivamente o osso temporal — ao contrário de osteoporose, osteogênese imperfeita e doença de Paget —, mais comumente a cápsula ótica e a platina do estribo. Há aumento da atividade osteoclástica e osteoblástica, com proliferação óssea anormal, mais espessura, celularidade e vascularização. Locais acometidos em ordem decrescente: porção anterior da platina > porção posterior > giro basal da cóclea > janela redonda, podendo atingir toda a cóclea e o conduto auditivo interno.

Quem e como Rotinas · 2.9

  • Autossômica dominante com penetrância e expressão variáveis (pode “pular” gerações).
  • Mulheres 2:1, brancos (rara em negros e asiáticos).
  • Otosclerose histológica (muito mais comum): focos na platina em 7% dos homens e 10% das mulheres brancas — mas só 12% desses têm fixação da platina e perda auditiva (otosclerose clínica).
  • Perda lenta e gradual, iniciando por volta dos 20 anos e ficando perceptível aos 30–40. Bilateral em ~70%.
  • Paracusia de Willis (ouve melhor em ambiente ruidoso, porque as pessoas falam mais alto) e dificuldade de ouvir enquanto mastiga — típicos de perda condutiva. Nos casos unilaterais: dificuldade de localizar o som e diagnóstico mais tardio.
  • História familiar de perda, cirurgias otológicas e uso de AASI em parentes.
  • Ambiental: vírus do sarampo (antígeno e RNA nos focos, IgG específica na perilinfa; queda da incidência após vacinação obrigatória). Gestação: estudos relatam progressão em 30–60% das mulheres com ao menos uma gravidez, mas um estudo de 2005 com 94 mulheres não encontrou relação.

Exame e audiologia Rotinas · 2.9

  • Otoscopia (de preferência com microscópio ou endoscópio) para excluir outras causas condutivas: rolha, microperfuração, secreção retrotimpânica.
  • Sinal de Schwartz: mancha avermelhada retrotimpânica no promontório anterior à janela oval (fase de maior atividade osteoclástica).
  • Diapasão 512 Hz: Rinne negativo se gap > 15 dB; Weber para o lado comprometido.
  • Audiometria: condutiva mais evidente nas frequências graves, com entalhe de Carhart na via óssea em 2 kHz. Com a progressão: todas as frequências e depois componente sensório-neural → perda mista.
  • Imitanciometria: reflexo estapédico ausente mesmo em estágios iniciais (diferencia da deiscência de canal semicircular superior); timpanometria A no início → As com a fixação.
  • TC de alta resolução: desmineralização anterior à janela oval, espessamento da platina e, no acometimento coclear, “sinal do duplo halo”.
Histologia: foco otosclerótico na região anterior da platina do estribo
Foco na região anterior da platina. A seta aponta a área escura (neotecido muito vascularizado, ávido por hematoxilina) que fixa a platina na janela oval — o local mais comum. Fonte: Rotinas em Otorrinolaringologia (Piltcher et al., 2015), Figura 2.9.1 (Massachusetts Eye and Ear Infirmary).
Histologia: foco otosclerótico acometendo toda a cóclea
Foco acometendo toda a cóclea. Quando o processo invade a cápsula ótica, some o “só condutivo”: aparece componente sensório-neural (perda mista) e, raramente, perda exclusivamente sensório-neural. Fonte: Rotinas em Otorrinolaringologia (Piltcher et al., 2015), Figura 2.9.2.
Histologia: otosclerose histológica sem repercussão clínica
Otosclerose histológica. Foco presente, platina livre: o paciente não tem perda auditiva. É a forma muito mais frequente (7–10% dos brancos; só 12% evoluem para doença clínica). Fonte: Rotinas em Otorrinolaringologia (Piltcher et al., 2015), Figura 2.9.3.
Histologia: foco em toda a cóclea e nas porções anterior e posterior da platina
Doença extensa. Focos na cóclea e nas porções anterior e posterior da platina: o correlato histológico da perda mista avançada, em que a estapedotomia melhora o gap mas o paciente ainda pode precisar de AASI. Fonte: Rotinas em Otorrinolaringologia (Piltcher et al., 2015), Figura 2.9.4.
Audiometria com perda condutiva e entalhe de Carhart em 2 kHz
Audiometria do livro (orelha direita). Via óssea (colchetes) normal — 10, 3, 3, 19, 10, 10 dB — com queda isolada em 2.000 Hz: o entalhe de Carhart. Via aérea (círculos) rebaixada: 50, 44, 40, 40, 40, 25 dB, pior nos graves. Gap amplo = perda condutiva. O entalhe é artefato mecânico e desaparece após a cirurgia. Fonte: Rotinas em Otorrinolaringologia (Piltcher et al., 2015), Figura 2.9.5.
TC axial de mastoide com desmineralização da cápsula ótica
TC de mastoide, corte axial. Seta: área de baixa densidade (desmineralização) na cápsula ótica, anterior à janela oval. Quando circunda a cóclea, é o “sinal do duplo halo”. A TC também ajuda a excluir deiscência de canal semicircular superior. Fonte: Rotinas em Otorrinolaringologia (Piltcher et al., 2015), Figura 2.9.6.

Tratamento Rotinas · cap. 2.9

“Todas as opções terapêuticas visam melhorar a qualidade auditiva, porém não têm efeito sobre a evolução da doença.”

Estapedotomia (cirurgia)
Indicação: gap aéreo-ósseo > 25 dB + limiares ósseos preservados
Substitui a supraestrutura do estribo por prótese, com microfenestra na platina. Sucesso ~95% em mãos experientes. Complicações: vertigem pós-operatória, lesão do nervo facial (porção timpânica), fístula perilinfática, perfuração persistente e perda sensório-neural. Em perdas mistas com limiares ósseos comprometidos, indicar com cautela: pode ainda precisar de AASI.
AASI
Sempre deve ser oferecido
Alternativa ao procedimento cirúrgico, especialmente se houver contraindicação absoluta à cirurgia.
Bifosfonatos
Alendronato 70 mg/semana · risedronato 35 mg/semana
Substituíram o fluoreto de sódio (40 mg/dia) por maior eficácia e menos efeitos colaterais. Tomar em jejum, 30 min antes do café, com bastante água, por ~6 meses; manter se melhorarem zumbido, vertigem e a perda sensório-neural. Ensaios clínicos ainda escassos.
Acompanhamento clínico
Audiometrias periódicas
Opção em perdas pequenas unilaterais de quem recusa cirurgia e AASI — com cuidado: a doença pode evoluir e a cirurgia perder a indicação.
Diagnóstico diferencial da perda condutiva (livro): (1) alterações de orelha externa/MT — perfuração, rolha de cerúmen, grandes exostoses; (2) síndromes de “terceira janela” — deiscência de canal semicircular superior, aqueduto vestibular alargado; (3) outras osteodistrofias — Paget, osteogênese imperfeita, anquilose reumática do estribo; (4) orelha média — colesteatoma, otite secretora, descontinuidade ossicular, fixação da cabeça do martelo, paraganglioma.
12 / Disacusia congênita

A janela que fecha.

Rotinas · cap. 2.10 Disacusia congênita = constatação da perda auditiva, parcial ou total, ao nascer ou nos primeiros dias após o nascimento. Quando bilateral, permanente e ≥ 40 dB NA, tem grande impacto no desenvolvimento da linguagem. Atenção ao conceito que o livro sublinha: surdez congênita não é sinônimo de surdez genética — a genética pode se manifestar a qualquer momento, inclusive na vida adulta.

EUA
1–3 / 1.000
alteração neurológica mais comum ao nascer
Brasil (TAN)
0,95 / 1.000
16% de etiologia genética
Egressos de UTI neonatal
1–4 / 100
“aumenta drasticamente”
Sem fator de risco
27,3–50%
por isso a triagem é universal
Das perdas congênitas
42 / 29 / 26%
genética / ambiental / desconhecida
Genéticas
70% ñ sindrômicas
30% sindrômicas (~400 síndromes)
35delG (GJB2)
70%
dos casos autossômicos recessivos
Conexina 26
10–20%
de TODAS as perdas NS
Outros números do livro: > 80% das perdas auditivas permanentes na criança são congênitas; ~1% dos nascidos vivos é carreador da 35delG; 11–41% das crianças com surdez NS têm alguma malformação de orelha interna visível à TC/RM. Nas formas não sindrômicas: recessivas (DFNB) 75–80%, dominantes (DFNA) ~20%, ligadas ao X 2–5%, mitocondriais 1%. As dominantes costumam ser pós-linguais, iniciando na 2ª–3ª décadas — o que permite reabilitação mais eficiente.

Causas não genéticas (“adquiridas”) Rotinas · 2.10

Infecções

Congênitas e pós-natais.

Congênitas: toxoplasmose, rubéola, citomegalovírus, herpes, sífilis, HIV. Pós-natais: CMV, herpes, sarampo, varicela e meningite.
CMV — a principal causa infecciosa de surdez congênita: causa viral mais frequente de infecção intrauterina, com lesão cerebral; ~1% de todos os RN infectados. Diagnóstico: sorologia na mãe e PCR na saliva do RN. Tratamento neonatal com ganciclovir contém ou até recupera a perda; há opção de globulina hiperimune intrauterina.
Rubéola: importante nos países em desenvolvimento por falha vacinal; infecção no 1º trimestre é mais grave. Tríade clínica: cegueira, surdez NS geralmente bilateral, cardiopatia e retardo mental. Prevenção = vacinação.
Toxoplasmose: 1/770 nascidos vivos no Brasil; manifestação neurológica, visual ou auditiva ao nascer ou tardia. O tratamento precoce por um ano pode prevenir a perda auditiva.
Sífilis congênita: ligada a baixo nível socioeconômico; incidência 9,9–22/1.000 (cai para 0,5/1.000 com pré-natal eficiente). Sorologia ao confirmar a gravidez e repetir na 28ª semana; tratar até 30 dias antes do nascimento. Surdez geralmente tardia.

Peri e pós-natais

Todas também são fatores de risco (JCIH).

UTI neonatal por mais de 5 dias — ou qualquer prazo com ventilação mecânica.
Ototóxicos: antibióticos aminoglicosídeos e/ou diuréticos de alça.
Hiperbilirrubinemia, anóxia perinatal grave, Apgar baixo.
Peso ao nascer < 1.500 g e hipotireoidismo materno grave.
Complemento clínico: otite média com efusão é a causa mais comum de hipoacusia (condutiva, flutuante) na criança maior — não entra nas congênitas, mas é o diferencial do dia a dia e causa frequente de falha no reteste.

Causas genéticas: o essencial Rotinas · Tabela 2.10.1

O livro traz uma tabela extensa de síndromes e lócus gênicos (300–500 genes envolvidos; > 120 genes nas não sindrômicas). Para o médico geral, o que precisa ficar:

HerançaSíndromeMarca clínica
Autossômica dominanteWaardenburg (PAX3, MITF, SOX10…)Olhos claros/azul brilhante ou heterocromia, mecha branca frontal, distopia cantal, base nasal alargada; perda moderada a profunda
Stickler (colágenos)Miopia precoce, descolamento de retina, catarata, face plana, micrognatia, fenda palatina, artropatia; disacusia NS ou mista
Branquio-oto-renal (Melnick-Fraser)Cistos/fístulas cervicais (2º arco branquial), malformação de orelha (microtia, apêndices), perda NS, condutiva ou mista
Treacher-Collins · ApertHipoplasia malar, fissuras palpebrais caídas, coloboma, micrognatia → perda condutiva (microtia, ossículos). Apert: cranioestenose, sindactilia; disacusia sobretudo por disfunção tubária/otite secretora
Autossômica recessivaUsherPerda auditiva + retinite pigmentosa. Tipo I: NS profunda + disfunção vestibular + retinite precoce; tipo II (mais prevalente): moderada a severa, vestíbulo normal; tipo III: progressiva
Pendred (SLC26A4)Hipoacusia + bócio — com função tireoidiana normal em muitos casos
Jervell & Lange-Nielsen (KCNQ1, KCNE1)Perda NS profunda bilateral + displasia cocleossacular (Scheibe) + arritmia cardíaca → morte súbita a partir do 2º–3º ano de vida
Ligadas ao XAlport (COL4A5 em 85%)Hematúria desde a infância, atinge mais meninos, insuficiência renal por volta dos 50 anos; perda NS progressiva e simétrica, frequências médias e altas, começando no fim da infância/adolescência; lenticone anterior
Norrie · OtopalatodigitalNorrie: alterações oculares graves e cegueira. Otopalatodigital: displasia esquelética, perda condutiva, fenda palatina, orelhas pequenas de baixa implantação
Não sindrômicas — o que decorar: principais causas são mutações de GJB2 e GJB6 (proteína conexina 26, primeiro gene nuclear ligado à surdez não sindrômica; canais que transportam íons entre células). A mutação 35delG (deleção de uma guanina na posição 35) está envolvida em 70% dos casos de herança autossômica recessiva, e mutações da conexina 26 respondem por 10 a 20% de todas as perdas neurossensoriais. Já existe teste comercial, inclusive no teste do pezinho. Mitocondrial: A1555G (MT-RNR1) — aumenta a suscetibilidade à ototoxicidade por aminoglicosídeos.

Malformações de orelha interna

As duas do livro

  • Aplasia de Michel: não há desenvolvimento do labirinto → anacusia desde o nascimento, com orelha média e externa normais.
  • Displasia de Mondini: cóclea incompleta (vesícula única ou um só giro), dilatação do ducto/saco endolinfático; estruturas neurais normais; pode ser unilateral, com audição da normalidade à perda total.
  • Perdas assimétricas sugerem alteração anatômica (investigar com TC/RM); perdas simétricas têm mais chance de etiologia genética — critério do livro para não pedir exames demais.
Tomografia mostrando aplasia coclear
Aplasia coclear (TC). Vê-se apenas o esboço do labirinto, sem estrutura coclear definida. É o achado que contraindica o implante coclear convencional. Fonte: Rotinas em Otorrinolaringologia (Piltcher et al., 2015), Figura 2.10.1.
Audiometrias das orelhas direita e esquerda em surdez profunda bilateral
Como é o audiograma de uma criança que “não detecta voz”. Nas duas orelhas, via aérea a 90–120 dB com setas de ausência de resposta e via óssea em 70 dB (limite do vibrador): perda profunda bilateral — e imitanciometria normal, o que exclui causa de orelha média. É o perfil de indicação de implante coclear. Fonte: Rotinas em Otorrinolaringologia (Piltcher et al., 2015), Figura 2.10.2.

Investigação: triagem auditiva neonatal Rotinas · cap. 2.10

As duas formas de investigação, segundo o livro, são a análise dos fatores de risco do Joint Committee on Infant Hearing (2007) e a TAN universal. A avaliação deve ser feita nas primeiras 24–48 horas de vida ou, no máximo, até 1 mês, independentemente de fatores de risco. Metas: diagnóstico antes dos 3 meses e intervenção antes dos 6 meses — é quando os resultados são melhores.

Fluxograma de TAN em crianças sem fatores de risco
TAN sem fatores de risco (Fig. 2.10.3). Começa por EOA: passou no teste ou no reteste → alta (com ou sem monitoramento). Falhou no teste E no reteste → PEATE; se falhar novamente, investigação e reabilitação. Fonte: Rotinas em Otorrinolaringologia (Piltcher et al., 2015), Figura 2.10.3.
Fluxograma de TAN em crianças com fatores de risco
TAN com fatores de risco (Fig. 2.10.4). Começa direto pelo PEATE (a EOA não detecta neuropatia auditiva, comum nesses RN): passou → alta com ou sem monitoramento; falhou no teste e no reteste → investigação e reabilitação. Fonte: Rotinas em Otorrinolaringologia (Piltcher et al., 2015), Figura 2.10.4.
Complementos do livro: crianças com malformação de qualquer sistema, sobretudo craniocervical, devem fazer EOA e PEATE até os 2 anos e audiometria comportamental após os 3 anos. Os antecedentes familiares são fundamentais para definir o tipo de herança, e os testes e o aconselhamento genético orientam diagnóstico, reabilitação e orientação familiar. A perda de seguimento chega a 40% em algumas regiões — o livro dedica sua seção “teoria versus prática” justamente a isso.

IRDA — indicadores de risco (JCIH 2007, com os itens citados pelo livro)

Preocupação dos pais com audição/falaHistória familiar de surdez na infância UTI neonatal > 5 diasVentilação mecânica (qualquer prazo) Aminoglicosídeos / diuréticos de alçaHiperbilirrubinemia Infecções congênitas: toxo, rubéola, CMV, herpes, sífilis, HIVPeso < 1.500 g Anóxia perinatal grave / Apgar baixoAnomalias craniofaciais Síndromes associadas à surdezMeningite bacteriana Hipotireoidismo materno graveTCE · quimioterapia

Tratamento e prognóstico Rotinas · cap. 2.10

O que o livro prioriza

  • Suporte familiar é apontado como o principal tratamento: esclarecer dúvidas, explicar prognóstico, equipe multiprofissional (genetista, pediatra, fonoaudiólogo, oftalmologista, neurologista).
  • Não existe tratamento curativo para as perdas genéticas; a morte da célula ciliada é irreversível (terapia genética e células-tronco só em modelos animais).
  • Reabilitação: AASI, sistema FM e implante coclear com fonoterapia especializada.
  • Às vezes a disfunção de outro órgão é mais grave que a surdez (ex.: insuficiência renal na síndrome de Alport) — por isso o diagnóstico sindrômico importa.

Por que a pressa (complemento clínico)

  • Período crítico de plasticidade auditiva nos primeiros anos; criança com atraso de fala merece avaliação auditiva sempre, mesmo com TAN normal.
  • Sinais de alerta: não se assusta com sons, não localiza a fonte (~6 m), não balbucia ou para de balbuciar, sem palavras aos 12–18 meses.
  • Implante coclear: perda NS severa a profunda bilateral sem benefício com AASI; após meningite, antecipar pelo risco de ossificação coclear.
  • No Brasil a TAN é obrigatória e gratuita (Lei 12.303/2010) — dado fora do livro, útil para prova de saúde pública.
13 / Alto rendimento

Números, comparações, pegadinhas.

Números que caem

Limiar normal
≤ 25 dB
na VA
Média tritonal
0,5·1·2 kHz
grau da perda
Graus
40 · 70 · 90
leve · mod · sev · prof
Faixa da fala
500–4k Hz
audível 20 Hz–20 kHz
Tímpano : estribo
17 : 1
relação de áreas
Diapasão
512 Hz
Rinne/Weber
PAIR
85 dB
exposição crônica
PAIR entalhe
3·4·6 kHz
recupera 8 kHz
Presbiacusia
~30%
60–69 anos · 1ª causa adulto
Súbita
30 dB·3f·72h
definição
Súbita idiopática
90%
bilateral < 2%
Súbita · tumor APC
2,7–10%
RM obrigatória
Genética sindrômica
30 / 70%
sindr. / não sindr.
35delG (GJB2)
70%
das recessivas · 10–20% de todas NS
UTI neonatal
1–4 / 100
sem fator de risco: 27,3–50%
Ototoxicose
25 dB
em ≥ 1 freq. de 250–8.000 Hz
Corticoide na SS
1 mg/kg
máx. 60 mg · 7–14 dias + desmame
Estapedotomia
gap > 25 dB
sucesso ~95%
Rinne negativo
gap > 15 dB
em 512 Hz
Schwannoma
90% dos APC
6% dos intracranianos
SS · recuperação espontânea
~60%
em 2 semanas
TAN
24–48 h
no máx. 1 mês · dx 3 m · interv. 6 m
Otosclerose
2 kHz
Carhart (VO)

Comparação lado a lado — quem é quem

EntidadeTipoLateralidadeCurvaPistaConduta
PAIRNSBilateral simétricaEntalhe 3–6 kHz, recupera 8 kHzRuído ocupacional, zumbidoPrevenção; AASI
PresbiacusiaNSBilateral simétricaDescendente, sem recuperação em 8 kHz≥ 60 a, “ouço mas não entendo”AASI; IC se profunda
OtotoxicidadeNS (± vestibular)BilateralDescendente em agudosAminoglicosídeo, cisplatina, IRSuspender/ajustar; reabilitar
Surdez súbitaNSUnilateral≥ 30 dB em 3 freq.≤ 72 h, plenitude, zumbidoCorticoide já + audiometria + RM
Schwannoma vestibularNS retrococlearUnilateral/assimétricaIRF desproporcionalmente ruimZumbido unilateral (70%), desequilíbrio (50%)RM com contraste; < 2 cm com boa audição: cirurgia ou observar
MénièreNSUnilateral (início)Ascendente (graves), flutuanteVertigem em crises + zumbido + plenitudeRestrição de sal, diurético
OtoscleroseCondutiva (→ mista)Bilateral ~70%Gap + Carhart 2 kHzMulher jovem, gestação, WillisAASI ou estapedotomia
Otite média c/ efusãoCondutivaBi ou uniGap leve–moderado; timpanometria BCriança, flutuanteObservação; tubo de ventilação
Rolha de cerúmenCondutivaUni ou biGap leveOtoscopiaRemoção

Pegadinhas de prova

“A PAIR é a doença ocupacional reversível mais prevalente” → falso: irreversível. Reversível é só a TTS.
“Presbiacusia é a segunda causa de deficiência auditiva no adulto” → falso: é a primeira.
“Na presbiacusia a otoscopia mostra miringoesclerose/retração” → falso: exame físico sem alteração característica.
“Weber lateraliza para o lado da perda neurossensorial” → falso: NS lateraliza para o lado bom; condutiva para o lado ruim.
“Rinne negativo sempre indica condutiva” → cuidado: falso-negativo na cofose unilateral.
“Weber indiferente + Rinne + bilateral = audição normal” → não necessariamente: também NS bilateral simétrica. Acumetria insuficiente → audiometria.
“Média tritonal normal exclui PAIR” → falso: o entalhe de 4 kHz fica fora de 500–2.000 Hz.
“Na surdez súbita, aguardar a audiometria para iniciar o tratamento” → falso: otoscopia + acumetria já orientam; atraso piora prognóstico.
“Surdez súbita é frequentemente bilateral” → falso: < 2%, e bilateral exige investigação de causa sistêmica.
“EOA normal garante audição normal” → falso: não avalia via neural (neuropatia auditiva) → RN de risco faz PEATE.
“Triagem apenas nos RN com fator de risco” → falso: triagem é universal; só por risco perde metade dos casos.
“AASI não auxilia a qualidade de vida do idoso” → falso: é o principal tratamento da presbiacusia.
“A gentamicina é o aminoglicosídeo mais cocleotóxico” → na Tabela 2.13.1 do livro, gentamicina, estreptomicina e tobramicina são vestibulotóxicas; amicacina, neomicina, canamicina e netilmicina são cocleotóxicas (a netilmicina é a de menor ototoxicidade).
“Na surdez súbita pedem-se exames laboratoriais de rotina” → falso: a diretriz citada pelo livro faz forte recomendação contra; laboratório é direcionado pela anamnese. Universal, além da audiometria, só a RM.
“Antiviral é primeira linha na surdez súbita” → falso: Tabela 2.15.1 = recomendação contra antivirais, vasodilatadores, vasoativos e trombolíticos.
“Audiometria ocupacional fecha o diagnóstico de PAIR” → falso: só via aérea, não identifica lesão neurossensorial; e o exame exige 14 h de repouso auditivo.
“Na otosclerose o reflexo estapédico só some em fase avançada” → falso: está ausente mesmo em estágios iniciais — é o que a diferencia da deiscência de canal semicircular superior.
“GJB2/conexina 26 causa surdez sindrômica com bócio” → falso: GJB2 é não sindrômica; surdez + bócio = Pendred (SLC26A4), muitas vezes com função tireoidiana normal.
“A triagem neonatal começa sempre pelas EOA” → falso: no RN com fatores de risco a TAN começa pelo PEATE (Fig. 2.10.4).
14 / Questões da prova antiga

Prova S26 · Q24 a Q28.

As marcações do aluno na prova digitalizada não são gabarito — cada resposta abaixo foi resolvida pelo conteúdo.

Q24. Paciente feminina, 53 anos, refere perda de audição no ouvido direito. À acumetria com diapasão: VA D < VA E, Rinne positivo bilateralmente e Weber lateralizado para a esquerda. Assinale a alternativa que indica a hipótese diagnóstica compatível:
Q25. Em relação à Perda Auditiva Induzida pelo Ruído (PAIR), assinale a alternativa INCORRETA:
Q26. Homem, 73 anos, relata que “ouve, mas não entende” os netos e muitas vezes não consegue localizar de onde vem a voz da esposa quando ela o chama de outro cômodo. Sintomas nos últimos anos, com piora progressiva. Hipertenso em uso de hidroclorotiazida 25 mg. Sobre a principal hipótese diagnóstica, assinale a correta:
Q27. No paciente com hipoacusia neurossensorial e condutiva (mista) em ouvido direito:
Q28. Analise a audiometria abaixo e assinale o tipo de perda referente:
O < ODX > OEsombra = gap

O audiograma original não foi preservado na digitalização da prova; esta é uma reconstrução ilustrativa compatível com a resposta indicada.

Bônus · exercícios do resumo de Liége

Paciente de 35 anos com zumbido e perda auditiva progressiva em uma orelha; piora do zumbido nos últimos 3 meses, com sonolência, desânimo e inapetência. Acumetria: VAD < VAE, Rinne positivo bilateral e Weber lateralizado para a esquerda. Qual a perda?
J.M.B., 59 anos, diabético em uso de metformina, refere dificuldade de ouvir familiares: “escuta, mas não entende”; mesmo com as máquinas do trabalho desligadas tem dificuldade de acompanhar colegas. Audiometria (dB, OD / OE): 250 Hz 15/10 · 500 15/10 · 1k 20/10 · 2k 25/10 · 3k 45/45 · 4k 55/50 · 6k 30/40 · 8k 15/25. Diagnóstico mais provável?
F.M.I., 72 anos, trazido pela filha. Acumetria: VAD = VAE, Rinne positivo bilateral, Weber indiferente. O exame sugere:
15 / Quiz inédito

No estilo da banca.

1. Sobre a surdez súbita, analise as assertivas:
I – É definida como perda neurossensorial de pelo menos 30 dB em três frequências consecutivas, instalada em até 72 horas.
II – Acomete ambas as orelhas na maioria dos casos, habitualmente de forma simultânea.
III – A ressonância magnética é o exame, além da audiometria, universalmente realizado para afastar patologia retrococlear.
Está(ão) correta(s):
2. Sobre a triagem auditiva neonatal, assinale a alternativa INCORRETA:
3. Atribua V ou F sobre ototoxicidade:
( ) Aminoglicosídeos lesam inicialmente as células ciliadas externas da espira basal, afetando primeiro as frequências agudas.
( ) A perda auditiva por furosemida é, em regra, definitiva, mesmo após suspensão.
( ) A cisplatina é cocleotóxica e seu efeito é cumulativo e dose-dependente.
( ) A associação de aminoglicosídeo com diurético de alça aumenta o risco de lesão coclear.
A sequência correta é:
4. Mulher, 29 anos, refere piora progressiva da audição bilateral, mais à esquerda, que se acentuou após a última gestação. Diz ouvir melhor em ambientes barulhentos. Mãe usa aparelho auditivo desde os 40 anos. Otoscopia normal. Qual achado é esperado na investigação?
5. Homem, 47 anos, chega à emergência: acordou há 36 horas com “ouvido esquerdo tapado”, zumbido e sem ouvir desse lado. Nega trauma, otalgia ou vertigem. Otoscopia normal bilateral. Weber lateraliza para a direita; Rinne positivo bilateral. Audiometria só disponível em 5 dias. Qual a conduta mais adequada?
6. RN de 34 semanas, 1.400 g, permaneceu 12 dias em UTI neonatal com ventilação mecânica e recebeu gentamicina. Qual o exame de triagem auditiva mais adequado antes da alta?
7. Audiometria da orelha direita: VA em 500, 1.000 e 2.000 Hz = 50, 55 e 60 dB; VO nas mesmas frequências = 10, 15 e 15 dB. Trata-se de:
8. Sobre surdez na infância e implante coclear, analise:
I – O implante coclear está indicado na perda neurossensorial severa a profunda bilateral sem benefício com aparelho de amplificação sonora.
II – Na surdez pré-lingual, o desempenho de linguagem após o implante independe da idade em que ele é realizado.
III – Após meningite bacteriana com surdez profunda, o implante deve ser antecipado pelo risco de ossificação coclear.
IV – A mutação do gene GJB2 (conexina 26) é causa importante de surdez sindrômica, associada a bócio.
Estão corretas:

Questões novas · direto do livro dos professores

Rotinas · cap. 2.15 · conduta e dose
9. Mulher de 52 anos com surdez súbita neurossensorial à esquerda instalada há 3 dias, sem comorbidades. Segundo o Rotinas em Otorrinolaringologia, o esquema de corticoterapia oral recomendado é:
Rotinas · cap. 2.13 · assertivas
10. Sobre ototoxicidade, conforme o Rotinas em Otorrinolaringologia, analise:
I – Estreptomicina, gentamicina e tobramicina são descritas como predominantemente vestibulotóxicas, enquanto amicacina, neomicina, canamicina e netilmicina são cocleotóxicas.
II – Considera-se ototoxicose quando há perda neurossensorial de 25 dB em uma ou mais frequências entre 250 e 8.000 Hz.
III – As lesões por diuréticos de alça e salicilatos ocorrem na estria vascular e, por isso, tendem a ser reversíveis após a suspensão da droga.
IV – Nos pacientes de risco, a monitoração deve ser feita antes do tratamento e a cada dois dias durante o tratamento, observando as frequências de 5.000 a 8.000 Hz.
Estão corretas:
Rotinas · cap. 2.12 · INCORRETA
11. Sobre a investigação da perda auditiva induzida pelo ruído, assinale a alternativa INCORRETA:
Rotinas · cap. 2.9 · V/F
12. Atribua V ou F sobre otosclerose, segundo o livro:
( ) A indicação de estapedotomia é feita quando há gap aéreo-ósseo maior que 25 dB, com os limiares ósseos ainda preservados.
( ) O reflexo estapédico está ausente mesmo em estágios iniciais da doença.
( ) Trata-se de osteodistrofia que acomete exclusivamente o osso temporal, com herança autossômica dominante de penetrância variável.
( ) A otosclerose clínica é mais frequente que a histológica.
A sequência correta é:
Rotinas · cap. 2.14 · vinheta
13. Homem de 49 anos com hipoacusia progressiva à direita há 2 anos e zumbido contínuo e agudo do mesmo lado. Otoscopia normal. Audiometria: perda neurossensorial moderada à direita com índice de reconhecimento de fala muito pior do que a perda tonal justificaria; reflexo estapédico ausente à direita. Qual a conduta e o achado esperados?
Rotinas · cap. 2.10 · triagem e causas
14. Sobre a disacusia congênita e a triagem auditiva neonatal, assinale a alternativa correta:
16 / Revisão relâmpago

Na véspera, 15 perguntas.

Responda em voz alta antes de revelar. Errou? Volte à seção correspondente.

1
Rinne positivo significa o quê? E negativo?

Positivo: VA > VO → normal ou neurossensorial. Negativo: VO > VA → condutiva (ou mista) — exceto falso-negativo na cofose unilateral.

2
Weber na condutiva lateraliza para qual lado? E na neurossensorial?

Condutiva → lado ruim. Neurossensorial → lado bom.

3
Weber central + Rinne + bilateral: o que concluir?

Normal ou NS bilateral simétrica — acumetria insuficiente, pedir audiometria.

4
Qual o limiar normal na audiometria e quais frequências entram na média tritonal?

≤ 25 dB; 500, 1.000 e 2.000 Hz.

5
Cortes de grau (Lloyd & Kaplan)?

26–40 leve · 41–55 moderada · 56–70 mod. severa · 71–90 severa · ≥ 91 profunda.

6
Como diferenciar condutiva, NS e mista no audiograma?

Condutiva: VO normal + gap. NS: VO rebaixada colada à VA. Mista: VO rebaixada + gap.

7
Símbolos e cores: VA e VO de cada orelha?

OD vermelho: VA O, VO <. OE azul: VA X, VO >.

8
PAIR: limite de exposição, frequências e o que a diferencia da presbiacusia?

> 85 dB crônico; entalhe 3–4–6 kHz (gota em 4 kHz) com recuperação em 8 kHz; irreversível; prevenção.

9
Definição de presbiacusia que cai literal?

Perda NS, bilateral, simétrica, de progressão lenta com a idade; 1ª causa de deficiência auditiva no adulto; tratamento principal AASI.

10
Definição de surdez súbita e conduta?

NS ≥ 30 dB em 3 frequências consecutivas em ≤ 72 h; 90% idiopática, ~60% recupera espontaneamente. Corticoide (prednisona 1 mg/kg/dia, máx. 60 mg, 7–14 dias + desmame igual) o quanto antes + audiometria + RM (único exame universal além da audiometria).

11
Ototóxicos reversíveis × irreversíveis?

Reversíveis (livro): salicilatos/aspirina, diuréticos de alça e eritromicina — agem na estria vascular ou têm efeito transitório. Irreversíveis: aminoglicosídeos e cisplatina (destroem células ciliadas externas). Critério de ototoxicose: perda NS de 25 dB em ≥ 1 frequência de 250 a 8.000 Hz.

12
Otosclerose: paciente típico e achados?

Mulher (2:1), branca, perda inicia ~20 anos e aparece aos 30–40, bilateral em ~70%, paracusia de Willis, sinal de Schwartz, otoscopia normal; condutiva pior nos graves com entalhe de Carhart (VO 2 kHz), reflexo estapédico ausente já no início, timpanometria A→As. Cirurgia se gap > 25 dB com via óssea preservada.

13
Triagem neonatal: qual exame em RN sem e com IRDA?

Sem risco: EOA. Com risco: PEATE automático (detecta neuropatia auditiva). Regra 1–3–6 meses.

14
Principal causa não genética e principal gene da surdez congênita?

CMV (principal causa infecciosa; PCR na saliva do RN, tratar com ganciclovir); GJB2/GJB6 (conexina 26), mutação 35delG em 70% das recessivas — não sindrômica.

15
Indicação de implante coclear e por que é urgente na criança?

NS severa–profunda bilateral sem benefício com AASI; janela de plasticidade nos primeiros ~3 anos; após meningite, antecipar (ossificação).

17 / Take-home

Pontos essenciais.

1

VO = cóclea

A via óssea pula orelha externa e média. VO normal + gap = condutiva; VO caída sem gap = NS; VO caída + gap = mista.

2

Weber aponta, Rinne decide

Condutiva → Weber para o lado ruim e Rinne − nele. NS → Weber para o lado bom e Rinne + bilateral. Central + Rinne + = insuficiente.

3

PAIR: 85 · 3-4-6 · irreversível

NS bilateral simétrica, gota em 4 kHz com recuperação em 8 kHz, otoscopia normal, sem tratamento — prevenção.

4

Presbiacusia = 1ª causa

NS bilateral simétrica lenta; “ouço mas não entendo”; exame físico normal; AASI é o tratamento principal.

5

Súbita é emergência

≥ 30 dB, 3 frequências, ≤ 72 h. 90% idiopática. Otoscopia + diapasão → corticoide já → audiometria + RM.

6

Criança: 24–48 h · 3 · 6

TAN universal antes de 1 mês (EOA; PEATE se há fator de risco), diagnóstico até 3 meses e intervenção até 6. CMV e conexina 26 (35delG) lideram. 27,3–50% dos RN com perda não têm fator de risco.

7

Zumbido unilateral = RM

Schwannoma vestibular: 90% dos tumores do APC, perda NS unilateral em 95%, discriminação pobre desproporcional, PEATE com retardo da onda V. RM com contraste tem sensibilidade ~100%; TC só vê > 6 mm.

8

Otosclerose = condutiva + Carhart

AD de penetrância variável, mulher branca, ~70% bilateral, paracusia de Willis, reflexo estapédico ausente desde cedo. Estapedotomia se gap > 25 dB com via óssea preservada (sucesso ~95%); AASI sempre como alternativa.